"Difícil é que os refugiados saiam dos alojamentos comunitários"

A Alemanha destacou-se pela forma acolhedora como recebeu estas vaga de refugiados

Presidente do município berlinense de Steglitz-Zehlendorf, Norbert Kopp diz que ocupação dos ginásios das escolas tem gerado críticas

Até 1994, Steglitz-Zehlendorf era o município de Berlim onde estavam alojadas as tropas americanas. Hoje, rica, envelhecida, com desemprego baixo e uma das maiores receitas orçamentais, esta área arborizada no sudoeste da capital alemã é mais famosa pela praia de Wannsee. Mas nos últimos meses os seus 300 mil habitantes têm-se debatido com um novo desafio: a chegada massiva de refugiados. E se destaca o esforço de boas-vindas feito pela população, o presidente do município, Norbert Kopp, admite ter recebido críticas, sobretudo por os migrantes estarem a "ocupar os ginásios" das escolas.

À frente de Steglitz-Zehlendorf (um dos 12 municípios de Berlim) há dez anos, Kopp explica como em 2015 recebeu 8% do total de refugiados que chegaram à capital alemã. E como depois de um ano na Alemanha entraram mais de um milhão de migrantes, a capital está a ponderar usar 60 terrenos para criar aldeias-contentores até junho. "A ideia é usá-las durante três anos, com opção por mais dois", explica o bezirksbürgmeister. Em Lisboa para participar num seminário para jornalistas portugueses, o autarca acrescentou esta semana que as famílias de refugiados, na maioria sírios, passarão depois para alojamentos sociais - onde poderão ficar "30 a 50 anos. Até 70, talvez". E reconheceu que "o mais difícil é que saiam dos alojamentos comunitários e arranjem casa própria". Até porque a habitação é um problema para qualquer berlinense. Com um crescimento anual de 40 a 50 mil pessoas - sem contar com os refugiados -, na capital "o mercado de habitação está esgotado".

Integração

Zona com baixa percentagem de estrangeiros (11% da população, quando noutras regiões de Berlim chega aos 50%), Steglitz-Zehlendorf há muitos anos integrou os italianos e polacos que ali se instalaram. Muçulmanos é que são uma novidade num município, onde não existe qualquer mesquita. A integração dos migrantes tem, portanto, sido uma das prioridades das autoridades. E apesar das críticas de alguns residentes, preocupados com o facto de os refugiados ocuparem os ginásios locais, deixando as crianças sem aulas de educação física, a receção tem sido boa. "Temos muitos voluntários - sobretudo associações cristãs. Mas o Estado tem de garantir alojamentos adequados e de destacar funcionários para isto". Berlim tem pessoas especializadas, que sabem árabe e têm background muçulmano. Segundo Kopp, o número destes funcionários tem aumentado à medida que a vaga de refugiados também aumenta, mas "nunca são demais".

Formado em Matemática e antigo funcionário do Gabinete de Estatísticas de Berlim, Kopp está habituado a lidar com números e garante que apesar de todas as notícias sobre "médicos sírios" entre os refugiados, apenas "5% dos que chegam têm formação académica".

Enquanto aguardam pela criação de uma central que redistribua os refugiados, a prioridade das autoridades de Steglitz-Zehlendorf é mesmo ajudar à integração destas pessoas. Aprenderem a língua é o primeiro passo. As crianças são colocadas em turmas de boas vindas, com um máximo de 12 a 14 alunos. Em Berlim há 680 turmas destas, num total de 7400 crianças. "O objetivo é que avancem para turmas normais à medida que aprendem a língua e interagem socialmente", explica Kopp, para o qual o essencial "é que lhes transmitamos os valores da sociedade alemã".

Além da língua, o município tem equipas que acompanham os refugiados quando estes têm de tratar dos trâmites legais para conseguir asilo na Alemanha. Neste momento, só em Steglitz-Zehlendorf há ainda mais de mil voluntários que trabalham com os migrantes para facilitar a sua integração.

Claro que a chegada em massa de estrangeiros, com uma língua e cultura muito diferentes, gerou alguma preocupação numa zona onde mais de 30% da população tem mais de 60 anos. Mas Kopp garante que "nunca houve manifestações do Pegida [movimento anti-imigração] nas nossas ruas".

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