"Destino? Não acredito no destino. Ter destino dá muito trabalho"

Manuel Eduardo Vieira saiu da ilha do Pico em 1962 e criou, no vale de São Joaquim, na Califórnia, um império de agroindústria baseado na produção e comercialização de batata-doce

As 120 milhas (190 km) entre o hotel, no centro de São Francisco, e a sede da A.V. Thomas Produce, em Atwater, vão melhorando de paisagem conforme nos afastamos da cidade grande. Manhã bem cedo no vale de São Joaquim, com o rio a transbordar devido às chuvadas das últimas semanas, campos inundados dos dois lados do asfalto, árvores despidas do inverno e um sol fantástico. Havia ali matéria, cenário pelo menos, para um filme. Mas não estava ali para passear e troquei a tentação de um road movie por um dia dedicado à batata-doce, ao rei da batata-doce.

Cheguei à fábrica de Manuel Eduardo Vieira, numa zona rural entre campos cultivados e estradas desenhadas a esquadria - amendoeiras em flor e lotes vazios à espera de uma nova vaga de batata-doce -, meia dúzia de minutos antes da hora marcada. O "comendador" apareceu pouco depois, na ampla sala de reuniões para onde uma funcionária me tinha guiado. Deixamos para depois a visita à fábrica, as fotografias e todos os detalhes sobre produção, armazenamento e embalagem. Com o gravador ligado, peço a Manuel Eduardo Vieira que comece a história pelo princípio. "Nasci na ilha do Pico, há 72 anos e saí para o Rio de Janeiro com apenas 17." Era um salto demasiado grande na história. Então e a infância, nos anos 1940 e 1950, no Pico? Conta-me que eram uma família organizada, sem dificuldades e a viver da agricultura de subsistência e de alguma pesca que o pai fazia aos fins de semana. Sim, ia descalço para a escola, mas... todos os miúdos andavam descalços nesse tempo. "Nós tínhamos uma vida folgada em matéria de alimentação. Era tudo retirado da terra: as batatas, o milho, o trigo, o centeio, as couves, as ervilhas, os tomates, os feijões..." Não havia mercearia para comprar essas coisas, nem havia dinheiro, tão-pouco, para as comprar. Agricultura, tudo agricultura. Ao fim de semana, o pai ia à pesca. Tudo porque tinham a responsabilidade de alimentar a família: "Eu e mais uma irmã e um irmão. Felizmente, fome não passámos."

Manuel Eduardo não saiu da ilha até à tal viagem para o Brasil, já com 17 anos, o que o limitou à 4.ª classe. Era o que o Estado, o ensino público, tinha para oferecer naqueles tempos. Haveria de estudar mais no Brasil, mas ainda hoje mantém boas recordações da infância e da juventude. "Não me esqueço das minhas grandes alegrias no Pico, quando ia aos bailes. Bailava chamarrita, tocava bandolim - eram as diversões daquela altura, com os meus 16, 17 anos. E também [não me esqueço] da primeira vez que o Benfica foi campeão europeu em 1961 e, depois, em 1962, com uma grande equipa de Costa Pereira e todos os demais. Não me esqueço de nada." Emoções, vitórias e derrotas com uma ilha presa à telefonia, tal como nos relatos do hóquei em patins, porque a televisão ainda não tinha chegado ao Pico nessa altura. E fica claro que, para lá da batata-doce - o lema da empresa é "a batata-doce é uma paixão e motivo de orgulho" -, Manuel Eduardo Vieira tem outro amor: o Sport Lisboa e Benfica. Conta, medindo o peso das palavras, que "o presidente, o Luís Filipe Vieira, é meu amigo pessoal. Ele esteve cá, com o Eusébio, aqui há uns anos, e nós fomos encarregados da receção".

Com o diploma da 4.ª classe arrumado lá em casa, Manuel Eduardo Vieira começa a ajudar a família na agricultura. Aos 12 anos consegue o primeiro emprego. Trabalha para um cortador de lenha que fornecia as fábricas da Baleia e do Peixe. Com 15 entra para a Martins & Rebelo, uma empresa de laticínios onde trata da desnatagem manual e depois fica responsável pela pasteurização. A meio de 1962, com 17 anos, chega um dia a casa e vê a mãe em lágrimas, num pranto. "Chorava copiosamente imaginando que eu iria para o ultramar como tantos jovens foram. E dizia: "O meu filho, Manuel Eduardo, não vai para o ultramar". E então escreveu para um tio, irmão dela, que morava no Rio de Janeiro, e esse tio preparou um termo de responsabilidade." Fez a viagem de barco. Passou semanas no mar. Madalena-Horta-Funchal- Lisboa-Rio. "Desembarquei no Rio de Janeiro no dia 20 de dezembro de 1962." A passagem por Lisboa e os dias de espera pelo navio rumo ao Brasil deixaram marcas. "Nunca tinha estado numa casa com água canalizada nem com televisão [risos]. Fui ver televisão em Lisboa, ainda a preto e branco. E depois, cheguei ao Rio de Janeiro, que era uma cidade maior."

Chegamos a um ponto decisivo de toda esta história. Na verdade, a um tio absolutamente fundamental. "Chego ao Rio de Janeiro e esse tio, que foi a causa de eu ir para o Brasil, o responsável por mim, diz-me assim: "Ah, eu tenho um açougue [talho], mas não vais trabalhar no açougue. Vais estudar, vais preparar--te para uma vida diferente." E foi a minha sorte, na verdade."

Manuel Eduardo Vieira não sente qualquer hesitação ao admitir que a sorte teve um papel principal na viagem de mais de 50 anos, entre os campos do Pico e a liderança de uma empresa que domina o mercado da produção e distribuição de batata-doce na Califórnia e que é a maior produtora mundial de batata-doce biológica. Fatura dezenas de milhões de dólares. "Não tenho dúvida! Sorte e a graça de Deus é o primeiro, o número um. Oh, sim, não tenho dúvida! Uma coisa é tomar decisões, a outra é tomar decisões acertadas, não é? E eu sou um assorteado [sortudo] nisso, eu sou um assorteado em tomar decisões acertadas. Destino? Não acredito em destino. Ter destino dá muito trabalho."

O tal tio brasileiro inscreve-o num curso noturno de Contabilidade e Gestão e os dez anos que passa no Rio de Janeiro são dedicados a trabalho de escritório em diversas empresas. É por lá que casa com Laurinda, também emigrante vinda da zona de Chaves, e é no Brasil que nascem os seus três filhos.

Estava a vida de Manuel Eduardo Vieira estabilizada, rotinada entre mulher, filhos, casa, primeiro carro, trabalho, praia e domingos a ver a bola no Maracanã, quando esta história dá mais uma reviravolta. A mudança há de acontecer em 1972. Anos antes, em 1967, Olímpia, a mãe de Manuel Eduardo, volta a estar em aflições com Artur, outro filho à beira de fazer 18 anos, a meses de "ir para o Ultramar". A saída foi apelar a um cunhado que estava nos Estados Unidos, na Califórnia, dedicado à agricultura no vale de São Joaquim desde os anos 1920, e com uma empresa própria desde o início da década de 1960. A matriarca recebe a carta de chamada e leva marido e filho para a América. Em 1972, Artur estava de casamento marcado e a mãe viu aí pretexto para juntar toda a família. "Escreve ao teu irmão para vir ser teu padrinho de casamento", disse Olímpia para Artur. Manuel Eduardo não via a família há dez anos, desde que tinha partido para o Brasil. Aterra com mulher e filhos no aeroporto de Fresno, no interior da Califórnia, e vai direto para a igreja. Era a primeira vez que estava de férias. Mal acaba o casamento ouve a mãe dizer-lhe: "Já não voltas para o Brasil, ficas aqui com o teu irmão." Manuel Eduardo ainda argumentou. "Mas mãe, eu tenho vida no Brasil, tenho o meu apartamento, gosto de uma praia, gosto de ir ao futebol ao Maracanã, sou sócio do Vasco da Gama..." A mãe ganha o braço-de--ferro, ele fica na Califórnia e passa os cinco piores anos de que tem memória. A América não era fácil, não era o Brasil.

Manuel Eduardo Vieira começa uma nova vida nos Estados Unidos a estudar inglês à noite e a trabalhar no campo, na agricultura, durante o dia. Primeiro ao lado do pai, a cuidar de um pomar de nogueiras do tio António Vieira Tomás (é daí que vem o nome da empresa - A. V. Thomas). As costas não aguentaram, as dores de escolher as nozes eram mais do que muitas e passa poucos meses depois para a empresa do irmão. Conduz tratores de lagartas e a operar alfaias agrícolas.

"Foram anos muito difíceis. Trabalhei no campo, na agricultura, onde não estava acostumado: trabalhar fora, com frio, com calor, conduzir tratores de lagarta, tratores de rodas. Foi muito difícil." Não foi óbvia a mudança de estilo de vida. "Deixou-me doente, porque eu trabalhei no escritório, no Rio de Janeiro, durante dez anos e, de um momento para o outro, vi-me num campo enorme a trabalhar com alfaias agrícolas. Ficar sentado em cima de um trator, sem mais nada que pensar, sem mais nada que resolver, sem mais leitura, sem mais interpretação de leis ou a fazer contabilidade. Então, isto não foi bom para mim, embora tenha sido um aprendizado na agricultura. Mas foi difícil a adaptação." Foram cinco anos de retrocesso em relação à vida que tinha no Brasil. Até que, em 1977, o tio António faz uma proposta irrecusável. Quer vender-lhe a A.V. Thomas Produce, que na altura produzia batata-doce em cerca de 20 hectares de terreno e tinha uma única linha de tratamento e embalagem instalada "num barracão na cidade de Livingstone". O negócio ficou fechado por 145 mil dólares e o pagamento em prestações combinado entre tio e sobrinho, sem que Manuel Eduardo Vieira tivesse de recorrer a crédito bancário. Assinada a papelada, Manuel Eduardo estava de regresso aos escritórios e ao ar condicionado, ao que tinha aprendido no Brasil e à estrada. "Viajei por toda a América, a convencer as pessoas de que podiam comprar de mim, podiam ter confiança em nós, que me viessem visitar. Rodeei--me dos melhores empregados do mundo. Nós nunca dizemos "não sei", "não temos", "talvez", "quem sabe amanhã", "oh, não! Hoje é sexta-feira, amanhã é sábado, depois vem domingo e segunda-feira é tolerância de ponto". Isso não acontece aqui." Ao fim de 40 anos, orgulha-se da gestão. Conta que tem em lugares-chave da empresa os filhos e outros familiares, e cerca de 50 portugueses nos quadros da A.V. Thomas. Enquanto passeamos pelos pavilhões, saem naturais os nomes dos funcionários portugueses, em pausa para almoço.

Começou a modernizar a empresa e a otimizar processos de produção. É o primeiro a introduzir a seleção da batata-doce no momento da colheita, o que aumenta a eficiência das linhas de embalagem. Esteve entre os primeiros a ter armazéns com temperatura controlada, para armazenar o produto e poder vender, com qualidade, ao longo de todo o ano. Em 1987, já sem espaço para crescer, muda a empresa para o local onde está hoje, em Atwater. Vai comprando terreno e construindo armazéns, grandes pavilhões para armazenamento, tratamento e embalagem de batata-doce - à média de dois por ano; já vai em 22. Até que, em 1988, decide certificar batata-doce de produção biológica, um gesto pioneiro que compensou. "Nós somos pioneiros na plantação da batata-doce biológica. Em 1988, quem é que falava em produto biológico?"

Agora, o departamento de Agricultura dos Estados Unidos garante que a A.V. Thomas é a maior produtora mundial de batata-doce biológica. Manuel Eduardo Vieira conta que "a produção é um pouco menor, no entanto o preço compensa. O sabor é o mesmo, mas as pessoas querem ingerir um produto que não teve nenhuma intervenção de pesticidas e herbicidas". Mais recentemente, introduziu outra inovação, a batata-doce em embalagem individual e pronta a ir ao micro-ondas, com embalagem e tudo. Um sucesso nos Estados Unidos.

Atualmente, a empresa tem 1200 hectares de produção biológica e outros 1200 de produção convencional. Entre a colheita própria e a batata-doce comprada a produtores freelancer, a A.V. Thomas vende cerca de 91 mil toneladas por ano. Domina o mercado da Califórnia e é um dos principais produtores para Estados Unidos, México e Canadá. No total, mais de 480 milhões de potenciais consumidores. Em 1993, a cadeia de supermercados Safeway oferece-lhe uma placa de matrícula personalizada com as palavras King Yam [Rei da Batata-Doce] - que ainda hoje usa num dos seus carros e que, anos mais tarde, Madruga da Costa, o presidente da Assembleia Regional dos Açores, dirá em português, num discurso oficial: "Manuel Eduardo Vieira, o rei da batata-doce".

Esta reportagem foi feita no âmbito de uma parceria DN-FLAD

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