Del Ponte, o míssil não guiado apontado aos crimes de guerra

Carla Del Ponte numa sessão da comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, em 2015, ladeada pelos dois membros que permanecem ainda na entidade nomeada para investigar os crimes de guerra e contra a humanidade na Síria

Tornou-se famosa com o seu trabalho nos conflitos do Ruanda e da ex-Jugoslávia. Deixou a comissão de inquérito à Síria por frustração.

Carla Del Ponte anunciou no dia 6 que ia abandonar a Comissão de Inquérito da ONU para a Síria, alegando que a falta de apoio do Conselho de Segurança tornava a tarefa impossível. A sua partida deixa a comissão apenas com dois elementos: o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro e a norte-americana Karen Koning AbuZayd. "Estou frustrada, vou sair! Já escrevi a minha carta de demissão e vou enviá-la nos próximos dias", afirmou a especialista em crimes de guerra, de 70 anos, ao jornal suíço Blick.

A comissão foi criada em agosto de 2011 pelo Conselho dos Direitos Humanos da ONU meses após o início do conflito sírio, tendo a antiga procuradora suíça se juntado ao grupo em setembro de 2012. "Não posso estar nesta comissão que não pode fazer absolutamente nada", explicou Del Ponte, acusando alguns membros do Conselho de Segurança "de não quererem justiça".

A determinação de Ponte em ser independente levou-a a ser ocasionalmente controversa e demasiado franca. Em maio de 2013, chocou os governos ocidentais ao declarar que a ONU tinha "fortes suspeitas" de que os rebeldes sírios estavam a usar gás sarin. Dois anos mais tarde, afirmou que a Justiça deveria ir atrás de Bashar al-Assad, mesmo que ele se mantivesse na presidência da Síria no âmbito de um acordo de paz.

No início deste ano, quando a comissão relatou que aviões do governo sírio tinham deliberadamente bombardeado um comboio humanitário, Carla Del Ponte já tinha dado sinais da sua frustração devido à incapacidade de acusar judicialmente os responsáveis. Agora, esta frustração era já indisfarçável. "No Ruanda e na antiga Jugoslávia eu tinha a capacidade para seguir investigações, apresentar acusações e mandados de prisão que levavam a julgamentos e prisões. Mas neste caso nada acontece. É inacreditável. É uma vergonha para a comunidade internacional e, em particular, para o Conselho de Segurança".

Esta suíça de 70 anos é conhecida como "míssil não guiado", "Calamity Carla", "Carla la peste" ou "nova Gestapo", apelidos que lhe foram sendo dados pelos muitos inimigos que foi ganhando ao longo da carreira como procuradora.

Foi nos anos 80 que fez os seus primeiros inimigos, quando participou na chamada "Pizza Connection", uma investigação que envolvia a Cosa Nostra. Viajou até à Sicília, onde conheceu o juiz Giovanni Falcone, especialista em processos contra a máfia italiana. Estavam juntos na casa de Falcone quando, no verão de 1988, a polícia descobriu cerca de 45 quilos de Semtex, um explosivo plástico, dentro da habitação.

Na década seguinte, já como procuradora-geral da Suíça, investigou os processos de lavagem de dinheiro nos bancos do país, principalmente pela máfia russa e pelos cartéis de droga colombianos, causando a exasperação do establishment do sistema bancário suíço. Chegou a investigar o ex-presidente russo Boris Ieltsin como participante de um esquema de lavagem de dinheiro e congelou as contas bancárias suíças da primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto, por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro com o seu marido, Asif Ali Zardari. Em 1995, congelou 130 milhões de dólares de Raúl Salinas, o irmão do presidente mexicano Carlos Salinas, que acabou por ser detido por lavagem de dinheiro de droga.

Mas foi a a partir de agosto de 1999 que o seu nome ganhou projeção mundial, com a nomeação pela ONU como procuradora do Tribunal Penal Internacional para o Ruanda (até 2003) e do Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (até 2008). "Tenciono continuar a trabalhar da mesma forma. Fiz muitos inimigos, mas não interessa. É para isso que estamos aqui", disse na altura em que assumiu os cargos.

O seu trabalho nestes dois tribunais já entrou para a história, com acusações contra vários implicados nos horrores da guerra da Bósnia e no massacre do Ruanda (ver coluna ao lado). No total, segundo a sua nota biográfica no site da ONU, foram feitas 91 acusações durante os mandatos de Carla Del Ponte nestes dois tribunais especiais, sendo talvez a mais notável a de Slobodan Milosevic, enquanto este ainda era chefe de Estado.

Nos anos seguintes, e antes de se dedicar à Síria, foi embaixadora da Suíça na Argentina. "Ela é uma impulsiva que anda depressa. Nós podemos ser um bom procurador mas não ter a coragem de dizer que não ligamos às políticas, que não podemos superar todos os obstáculos. Ela diz. Ela tem a coragem de se demitir por causa disso", afirmou ao Libération Cornelio Sommaruga, ex-presidente do comité internacional da Cruz Vermelha, comentando a recente decisão de Del Ponte.

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