Debate de ataques cruzados acabou com 219 "não" a Sánchez

Pablo Iglesias, líder do partido Podemos

Mariano Rajoy começou a maratona de intervenções acusando o líder socialista de ter uma candidatura "fictícia", enquanto Pablo Iglesias alertou para risco da "laranja mecânica"

Os ataques cruzados à esquerda e à direita não deixavam margem para surpresas na hora do voto. O debate de investidura de Pedro Sánchez começou às 9.00 (menos uma hora em Lisboa) e já eram quase 20.00 quando acabou a votação: 130 "sim" (do PSOE e Ciudadanos), 219 "não" (do Partido Popular, Podemos e das outras formações com assento parlamentar) e uma só abstenção (da Coligação Canária). Um cenário que não deverá ser muito diferente na segunda votação, marcada para amanhã à noite, fazendo falhar a investidura do líder socialista.

"Continuo a confiar no diálogo e no acordo para um governo de mudança que melhore a vida de todos os espanhóis", reagiu no Twitter o secretário-geral do PSOE, que durante o debate continuou a estender a mão ao Podemos para que "não vote com Mariano Rajoy". Mas Iglesias recusa apoiar o pacto que o socialista assinou com o Ciudadanos, de Albert Rivera, defendendo um novo diálogo a partir de sexta-feira. Amanhã, a partir das 18.30, Sánchez submete-se a nova votação onde só precisa de maioria simples.

A manhã começou com a intervenção de Rajoy, depois de na véspera Sánchez ter apresentado o programa. O primeiro-ministro parecia ter voltado aos tempos de líder de oposição, surgindo mais à vontade do que quando intervinha no Congresso como chefe de governo. A mensagem era só uma: que Sánchez não tem legitimidade para governar e que obviamente não ia votar num programa cuja base é a revogação de tudo aquilo que fez. O líder do PP considerou a candidatura socialista "fictícia" e "irreal", acusando o secretário-geral do PSOE de fazer "bluff" e de querer fazer uma "contrarreforma" em Espanha.

O primeiro-ministro disse que, após a maior derrota de sempre dos socialistas a 20 de dezembro, Sánchez "descobriu Portugal" - numa referência ao acordo que António Costa fez com o PCP e Bloco de Esquerda para governar. "Se outros perdedores conseguiram, porque não eu", indicou Rajoy, dizendo que foi o que Sánchez pensou, tendo até visitado Lisboa para falar com o primeiro-ministro português.

O problema, referiu, é que depois o líder socialista acabou por se "sabotar", ao tentar negociar com esquerda e direita. O líder do PP não poupou críticas ao acordo com o Ciudadanos, ironizando ao considerá-lo "histórico" e dizendo que "sem dúvida que as crianças o vão estudar nas escolas". E acusou Sánchez de perder tempo - "Você não precisava de um mês para o que nos trouxe" - e de mentir ao rei, aos deputados e aos espanhóis.

Iglesias bélico

O líder do Podemos foi o segundo a interpelar Sánchez, estreando-se na tribuna do Congresso e não poupando ataques a ninguém. Em relação ao PP disse que era um "partido corrupto", fundado por "sete ministros da ditadura", considerando os seus dirigentes como "filhos políticos do totalitarismo".

Já o Ciudadanos foi apelidado de "laranja mecânica", com o líder do Podemos a alertar Sánchez para os riscos de uma aliança. "Deixe de obedecer aos oligarcas, deixe de ouvir os cantos de sereia que o levam ao naufrágio". Quanto a Rivera, Iglesias começou por dizer que o admirava, para depois criticá-lo por não ter outra ideologia que a proximidade com o poder. "Se há um vencedor hoje é o senhor", indicou, ao mesmo tempo que o acusava de ser uma "marioneta dos poderosos".

O PSOE também não foi poupado, com Iglesias a dizer que qualquer dia os militantes pedem a devolução do S, de socialista, e do O de operário. E a acusar Sánchez de estar já a fazer campanha para novas eleições - que terão que ser convocadas caso não haja consenso até 2 de maio. Apesar das críticas voltou a estender a mão aos socialistas para negociarem um verdadeiro governo de esquerdas, sem o Ciudadanos, depois de falhadas as duas primeiras votações de investiduras.

Na resposta, Sánchez lembrou que não era preciso o Podemos atacar tanto o PP. "Basta que não votem como eles", lançou, ciente que só com o seu apoio pode conseguir ser primeiro-ministro. "Não é que não possa, é que não quer", indicou, sobre um eventual apoio ao acordo com o Ciudadanos.

Rivera corta com Rajoy

Longe dos ataques do discurso do primeiro-ministro ou do líder do Podemos, Rivera não deixou contudo de enviar recados. "Chamem-me clássico, mas prefiro um economista da London School of Economics a [Juan Carlos] Monedero à frente da economia em Espanha", disse, referindo-se a um dos nomes que alegadamente o Podemos gostaria de ver num eventual governo com o PSOE.

Mas enquanto Sánchez, nas suas intervenções, tenta conseguir o voto do partido de Iglesias, Rivera tenta convencer os deputados do PP - a quem pede "coragem e valentia" para cortarem com Rajoy. "Quem não limpa a sua casa, como vai limpar a Espanha da corrupção?", lançou ao primeiro-ministro, cujo partido está envolto em escândalos de corrupção. Em relação ao acordo com os socialistas, Rivera diz que prefere "ser útil aos espanhóis e pôr em marcha as reformas a ser alguém importante", indicando que se preocupa mais com o futuro de Espanha do que em saber quem será o primeiro-ministro.

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