Daesh ataca Paris enquanto 11 candidatos debatiam na televisão

Um polícia morreu no tiroteio nos Campos Elísios. Atacante foi abatido e estava sinalizado pelas autoridades por terrorismo

Era suposto ter sido uma noite apenas de debate de ideias políticas, com os 11 candidatos às presidenciais a ser entrevistados durante 15 minutos na estação televisiva France 2. Tudo estava a correr de acordo com o guião até que surgiram notícias de um tiroteio nos Campos Elísios que seria reivindicado pelo Estado Islâmico. Um polícia morreu e outros dois ficaram feridos. Abu Yusuf al-Beljiki, conhecido como "o belga" e que o Daesh identificou como o atacante, foi morto pela polícia. As autoridades francesas limitaram-se a dizer que fazia parte dos "ficheiros S" - uma lista com os indivíduos sinalizados pelas autoridades por suspeitas de atividades terroristas. À hora de fecho desta edição continuava a ser investigada a possibilidade de haver um cúmplice em fuga.

Nada disto tinha ainda acontecido quando o serão político começou com Jean-Luc Mélenchon, candidato de esquerda apoiado pelos comunistas, a sentar-se diante dos jornalistas. A ordem de entrada em cena foi sorteada e todos tinham de levar para estúdio um objeto que os representasse e que pudesse ter lugar no gabinete da presidência, no Eliseu.

Mélenchon levou consigo um relógio despertador. "Para me dizer, de manhã à noite, que é tempo de uma França independente e que é tempo de abandonar a monarquia presidencial", justificou. O líder da França Insubmissa tem sido a surpresa na reta final da campanha e está neste momento entre os quatro favoritos para passar à segunda volta. Ontem voltou a criticar a UE, advogou um imposto de 90% para rendimentos acima dos 400 mil euros anuais, defendeu a ONU e criticou "os clubes de ricos como o G20".

Seguiu-se a também esquerdista Nathalie Arthaud e depois foi a vez de Marine Le Pen entrar em cena. Lá fora, nas ruas da cidade, ainda tudo estava calmo. "Recuperar a nossa moeda permitir-nos-á partir à conquista do mundo", defendeu a líder da Frente Nacional. Le Pen voltou a sublinhar que é preciso fechar as fronteiras e expulsar de França todos os "ficheiros S". O objeto que a candidata levou consigo foi a chave de uma empresa que lhe foi confiada por um empresário. Um gesto simbólico porque o seu objetivo é "devolver aos franceses as chaves da casa França".

Seguiu-se François Asselineau, que defendeu "a devolução dos serviços públicos aos franceses". Acabou de falar por volta das 21.00 em Paris (20.00 em Lisboa) e cedeu o lugar a Benoît Hamon. Foi quando o candidato apoiado pelo Partido Socialista estava a explicar as suas ideias que surgiram as notícias do ataque. A entrevista, porém, não foi interrompida e não houve qualquer referência ao que se ia passando. Hamon, caído em desgraça nas sondagens, escolheu como objeto um cartão da Segurança Social, porque ela "está em risco nestas eleições". Com um discurso muito centrado nas questões económicas, Hamon voltou a defender os méritos do rendimento universal.

Seguiram-se Nicolas Dupont--Aignan e Philippe Poutou. Só antes das perguntas ao sindicalista que virou candidato é que os jornalistas falaram do que se estava a passar nos Campos Elísios.

A gramática, para mostrar que a grande aposta do seu mandato será a educação, ficou no camarim. Emmanuel Macron - candidato centrista que lidera as sondagens - preferiu não levar consigo o manual que usara durante a juventude. Quis aproveitar os primeiros minutos para reforçar a solidariedade para com a classe policial. "O primeiro dever de um presidente é proteger. Um polícia foi morto e não sabemos ainda como classificar aquilo que se passou", disse Macron.

Por esta altura, nos bastidores, os candidatos que já tinham passado pelo estúdio iam reagindo às notícias através das redes sociais. "Emoção e solidariedade para as nossas forças da ordem, de novo tomadas como alvo", escreveu Le Pen no Twitter. "Os meus pensamentos vão para o polícia morto e para os seus colegas feridos", sublinhou Benoît Hamon na sua conta.

Em cena, depois de Macron, foi a vez de Jacques Cheminade. Foi durante esta entrevista que os repórteres passaram a informação de que o atacante já tinha sido identificado e era um "ficheiro S". Os dois últimos candidatos a tentar convencer os franceses em 15 minutos foram Jean Lassalle e François Fillon. O candidato apoiado pel"Os Republicanos começou por dizer que "a luta contra o terrorismo deve ser a grande prioridade do próximo presidente" e terminou referindo que está convencido de que irá ganhar as eleições.

Quando a intervenção de Fillon estava prestes a chegar ao fim, os jornalistas informaram que ao contrário do que chegara a ser noticiado o segundo polícia não tinha morrido, mas estava gravemente ferido.

França, em choque com mais um ataque, vai a votos no próximo domingo. A sondagem da Ifop-Fiducial revelada ontem reafirma aquilo que todos os estudos recentes têm mostrado. Macron (24%), Le Pen (22,5%), Fillon (19,5%) e Mélenchon (18,5%) são neste momento os candidatos que discutem a passagem à segunda volta. Numa hipotética segunda volta entre Macron e Le Pen, o ex-ministro da Economia levaria a melhor, com 61% contra 39%.

Macron, Le Pen e Fillon resolveram suspender as ações programadas para hoje, o último dia da campanha eleitoral.

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