Contra-ataque de Lula: "A jararaca ainda está viva"

Lula da Silva rodeado por apoiantes na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo

Obrigado a prestar depoimento na Lava-Jato, ex-presidente lamenta: "Neste país condena-se por manchete." Dilma "inconformada"

"Se tentaram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo", disse Lula da Silva em discurso na sede do Partido dos Trabalhadores (PT), em São Paulo, horas depois de ter sido obrigado a depor no âmbito do processo da operação Lava-Jato, que investiga o escândalo de corrupção na Petrobras. A medida do impacto do interrogatório ao ex-presidente do Brasil é dada pela rede social Twitter: Lula foi o assunto mais comentado a nível mundial ao longo do dia de ontem e a palavra "jararaca", na versão em inglês bothrops, ficou no top 10.

No país, quando o Jornal Nacional, principal espaço noticioso da TV Globo e do Brasil, noticiou o caso houve um aplausaço, ou seja, uma manifestação coletiva de júbilo, nas principais cidades do país, conforme previamente combinado entre opositores de Lula nas redes sociais. Foram registados tumultos entre apoiantes e opositores do PT na esquadra do aeroporto de Congonhas, onde o ex-presidente depôs, e em São Bernardo do Campo, cidade nos arredores de São Paulo onde vive. E no dia 13 deste mês as profundas clivagens políticas entre os pró e os contra o governo liderado por Dilma Rousseff, Lula e o PT serão potenciadas durante manifestações de um lado e de outro marcadas para o efeito - as autoridades garantiram já estar alerta.

"O juiz quis fazer um show, eu acho que mereço mais respeito", disse Lula

Lula, que foi levado para interrogatório (o nome técnico é condução coercitiva) logo às seis da manhã a propósito da 24.ª fase da operação Lava-Jato, chamada Aletheia (busca da verdade, na Grécia Antiga), reagiu contra-atacando horas depois. "A jararaca ainda está viva", garantiu, aludindo a uma perigosa serpente que habita o Brasil, o Paraguai e a Argentina e que é traduzível do tupi como "cobra grande".

"Hoje eu senti-me um prisioneiro", prosseguiu o presidente do Brasil de 2003 a 2010. "Já passei por muita coisa na minha vida, não sou homem de guardar mágoa, mas o nosso país não pode continuar assim, hoje quem condena no Brasil são as manchetes, há em tudo um espetáculo mediático", afirmou, depois de ter sido filmado e fotografado ao lado de agentes da Polícia Federal, entre os quais Newton Ishii, conhecido como "japonês bonzinho" e que se tornou celebridade por participar em todas as detenções de poderosos.

"O Sérgio Moro [juiz que coordena a Lava--Jato] podia ter mandado um comunicado a dizer "ó seu Luiz Inácio, quer prestar depoimento em Curitiba" [cidade sede da operação policial], eu até adoro Curitiba, mas preferiu um show, eu acho que mereço mais respeito", continuou. E, enquanto batia com a mão na mesa, afirmou que foi o melhor presidente do Brasil - saiu do cargo há seis anos com mais de 70% de aprovação - e que por isso é que é "o conferencista mais caro do mundo ao lado de Bill Clinton". "Fui melhor do que cientistas, políticos, médicos, advogados, mas a elite brasileira é muito conservadora e quer impedir a Dilma de governar."

Lula voltou a dizer que, por isso, em vez de se reformar, a sua pretensão inicial, está disposto a concorrer ao Palácio do Planalto em 2018. Para tal convidou os movimentos sociais que apoiam o PT a participar em comícios até à eleição, perante os aplausos dos militantes do partido.

A acusação

Para o interrogatório de Lula contribuíram "evidências de que recebeu dinheiro da Petrobras", assinalou o Ministério Público Federal. Em causa, um tríplex no Guarajá, estância balnear a cem quilómetros de São Paulo, e uma propriedade rural em Atibaia, no interior do estado, que receberam obras supostamente pagas por construtoras envolvidas no escândalo da Petrobras. Além disso, foram registados valores altos em doações e pagos por palestras por essas mesmas empresas, num total "muito difícil de calcular", segundo o investigador Carlos Lima, mas que podem rondar os 30 milhões de reais [cerca de sete milhões de euros].

Durante o interrogatório, o ex-sindicalista "prestou esclarecimentos sobre os imóveis, sobre ofertas de vinhos caros e notícias de jornal", de acordo com o deputado do PT Paulo Teixeira, que teve acesso ao depoimento.

José Dirceu, ex-braço direito de Lula, Marcelo Odebrecht, presidente da construtora Odebrecht e com relações próximas ao governo PT, José Carlos Bumlai, empresário íntimo do ex-presidente, e Vaccari Neto, tesoureiro do partido, estão entre os mais de cem envolvidos no escândalo, segundo as investigações dos juízes da Lava-Jato, iniciadas em 2014.

Dilma e Aécio reagem

Entretanto, Dilma Rousseff convocou a imprensa para se revelar "inconformada com a condução coercitiva de Lula, depois de ele tantas vezes se ter mostrado disponível a prestar esclarecimentos". Rodeada de 12 ministros, a chefe do Estado disse-se indignada com o conteúdo da delação premiada de Delcídio do Amaral, senador do PT envolvido no escândalo, em que a acusava de ter conhecimento da corrupção à volta da Petrobras e que foi tornada pública na quinta-feira.

O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), do candidato derrotado em 2014 Aécio Neves, lançou uma nota onde considerou o interrogatório a Lula "o princípio do fim do governo de Dilma". "O avanço da operação Lava-Jato é um passo definitivo para que os brasileiros possam ter acesso à verdade há muito sonegada, os graves indícios de irregularidades cometidos pelos governos do PT estão finalmente a vir à luz, o Brasil merece conhecer a verdade", disse o presidente do partido.

A Bovespa, bolsa de São Paulo, operou ontem em alta, subindo 4%, e o dólar caiu para 3,76, valor mas baixo do ano, com as notícias do interrogatório a Lula.

Em São Paulo

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