Belgas querem os seus engarrafamentos na lista de Património da Unesco

Uma imagem habitual das estradas às primeiras horas da manhã em Bruxelas

Campanha é humorística e financiada pela ferroviária nacional. Mas as filas custam aos belgas 1% do PIB

Uma campanha publicitária divulgada a nível nacional está a pedir aos belgas que se juntem a uma nova causa: solicitar à UNESCO que inclua as filas de trânsito no país na lista dos bens considerados Património Mundial - lista onde constam, por exemplo, o Mosteiro dos Jerónimos ou o indiano Taj Mahal.

Segundo o The Wall Street Journal, a campanha é humorística e financiada pela companhia nacional de caminhos-de-ferro, a SNCB, empenhada numa luta - inglória - para convencer os belgas a usar os transportes públicos, perante as filas de trânsito "monumentais". Segundo a INRIX, uma empresa norte-americana especializada em monitorização e informação de tráfego, foi nas duas maiores cidades belgas, Bruxelas e Antuérpia, que se registaram os maiores engarrafamentos da Europa e da América do Norte em 2012.

Citando dados da União Europeia, o Wall Street Journal indica que as filas de trânsito custam cerca de 1% do PIB belga: dois terços dos cidadãos conduzem até ao trabalho. Dificilmente os engarrafamentos conseguirão entrar na lista da Unesco, mas a campanha teve pelo menos uma virtude, a de colocar as autoridades interessadas numa troca pública de argumentos sobre os problemas dos transportes e acessibilidades no país.

Há quem denuncie o lobby anti-carro, nomeadamente a vice-presidente da câmara de Bruxelas, Els Ampe, que critica os grupos ambientalistas e pró-bicicleta na cidade. "Está tudo concebido para bloquear os carros", garante. A resposta do porta-voz da associação dos ciclistas belgas não se fez esperar. "Acho que é uma piada", disse Roel De Cleen, criticando as políticas governativas ao longo dos últimos anos, que ignoraram as infraestruturas para ciclistas privilegiando a venda de automóveis a preços baixos. Disparate, diz por sua vez o porta-voz do grupo automóvel belga Touring, que se queixa, refere o Wall Street Journal, de um enorme desinvestimento nas estradas e em formas alternativas de transporte.

Por outro lado, muitos belgas consideram que os comboios não são a alternativa aos automóveis nas deslocações para o trabalho, devido às greves frequentes dos trabalhadores. Houve mesmo quem tivesse lançado uma contra-campanha, pedindo que sejam os atrasos nos caminhos-de-ferro a ser incluídos na lista de património da UNESCO.

"Os atrasos dos nossos comboios têm um valor histórico sem preço... e muitas carruagens são nada menos do que museus sobre rodas", ironizou Sven Pichal, animador de rádio e figura conhecida da televisão belga, responsável por um programa sobre direitos do consumidor.

O peso dos hábitos culturais também não ajuda a desmobilizar as longas vilas de viaturas. Imre Keseru, investigador na Universidade Livre de Bruxelas, explica que os belgas valorizam a vida nos subúrbios e não gostam de viver na cidade onde trabalham. Apesar de tudo, há dados positivos: nos dez anos anteriores a 2013, o uso dos transportes públicos na Bélgica terá subido cerca de 70%.

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