"Aqui há um modo de gerir diferente do que existe em Portugal"

Manuel Eduardo Vieira em frente às centenas de caixotes que vão guardar a nova colheita de batata doce, em novembro

Os três filhos do empresário falam português e o próprio tem regressado por diversas ocasiões ao seu Pico natal, onde também tem negócios.

Foi em 1979 que Manuel Eduardo Vieira regressou pela primeira vez aos Açores, à ilha do Pico. Nunca deixou de se sentir português e ilhéu. Os três filhos falam português, o que lhe deu algum trabalho. "A minha mulher e eu exigíamos dos nossos filhos, quando estavam na escola primária, que quando chegavam a casa só falavam português. "Oh, but...". "Não, não, não. Aqui em casa só se fala português!" Desde tenra idade, 4, 5 anos que iam para a escola, chegavam a casa, e tinham de falar português. Às vezes rejeitavam. E o chinelo tocava [risos]. O chinelo era requerido. É verdade, é verdade. Nós exigimos dos nossos filhos em casa falar português."

Regressado ao Pico, reparou que pouco tinha mudado e que não havia um local de convívio para promover atividades culturais. Em 1996 esteve na origem do projeto do Salão da Silveira - o Centro Social, Cultural e Recreativo. Foi um pesadelo burocrático, que envolveu a Igreja e as autoridades locais e o espaço só foi inaugurado em 2003.

Este não foi gesto único, nem é exclusivo de Manuel Eduardo. Os açorianos que estão longe, na América ou no Brasil, fazem tudo para ter um pedaço das ilhas por perto. Organizam-se em associações religiosas, clubes, bandas filarmónicas ou instituições de solidariedade. O "rei da batata-doce" é um exemplo disso mesmo, do envolvimento na comunidade, nas atividades que os vão prendendo e ligando à memória das ilhas.

Num passeio de carro pelos campos de batata-doce e amendoeiras em flor, a caminho do almoço, Manuel Eduardo atende o telemóvel - faz questão de que o número seja público -, é um pedido de ajuda de uma instituição da comunidade açoriana. A conversa dura breves minutos, não há qualquer hesitação do lado de cá, e tudo acaba com um outro telefonema, para a assistente pessoal. A ordem é simples e clara: "Preciso que passe um cheque e que o envie para..."

Numa das viagens aos Açores, em férias, Manuel Eduardo Vieira repara que a Silveira não tem um supermercado. Fala com um amigo de infância, veterinário no continente, e decidem embarcar numa aventura. Mais do que o negócio, falou o coração. Construíram o Lajes Shopping, uma grande superfície à entrada da vila. Foi esse negócio que veio confirmar algo que já suspeitava. Um mundo separava o ambiente empresarial dos Estados Unidos daquilo que se vive em Portugal. "Aqui há um mercado enormíssimo, mas também há um modo de gerir diferente. Eu tenho um telefone para ser atendido. Quando não posso atender, ligam-me, deixam mensagem e eu rigorosamente devolvo a chamada. Coisa que em Portugal não fazem." Não é fácil encontrar bons gestores em Portugal, confessa. E há marcas culturais que fazem toda a diferença. "Quem é que chega na hora certa? E depois têm um cafezinho, vão ler o jornal, uma conversa... Começam a trabalhar uma hora depois. Quando começam, porque se não têm de ir buscar o filho à escola têm de ir levar o filho à igreja e não sei o quê mais."

Manuel Eduardo sublinha as diferenças entre os seus funcionários em Portugal e nos Estados Unidos. "Se está auferindo um salário a partir das oito, a partir das oito tem de botar rendimento. Então como é que é? "Ah, mas você vem de outra..." "Pois venho! De outra galáxia, eu venho de uma galáxia que é a correta". Ou seja, se o empregado está auferindo salário a partir das sete, ele tem de ter rendimento a partir das sete. Pouco ou muito, tem de ter rendimento ou então começa às oito ou começa às nove!"

Mas está arrependido do investimento no Pico? Manuel Eduardo garante que não, que não é arrependimento. Talvez desilusão. "Eu não quero dizer que estou arrependido. Eu dificilmente me arrependo de alguma coisa. Podia ter feito diferente. Porque a minha ideia foi ajudar a minha terra, a vila onde eu nasci, a ter algo que não tinha. Fico é, na verdade, triste que as pessoas não vejam isso e que não deem o seu melhor para o bom funcionamento daquilo, entende?" Será mesmo, acredita, um problema cultural. "Eu acho que é um problema de mentalidade e de cultura. A responsabilidade... Eu sou um amante de Portugal e mais amante ainda da minha terra, onde eu nasci, que é a Silveira do Pico. E quando eu vejo que as pessoas andam sempre atrasadas para tudo... Qualquer coisa, qualquer negócio em que não houver rigor, disciplina, eficiência, pontualidade, atenção, não vai singrar. Disso eu não tenho dúvida."

Perfil

Manuel Eduardo Vieira

Nasceu em 1945 no sítio da Silveira, freguesia de Lajes do Pico, ilha do Pico, Açores. Completou a 4.ª classe no Pico e só voltou a estudar no Brasil - emigrou para o Rio em 1962 -, já com 17 anos, onde tirou um curso de Contabilidade e Gestão. Dez anos depois, aterrou na Califórnia. Comprou a A.V. Thomas a um tio em 1977 e transformou-a no maior produtor mundial de batata-doce orgânica. É um dos principais produtores dos Estados Unidos e exporta para México e Canadá.

Já recebeu 17 reconhecimentos públicos, com destaque para a comenda da Ordem do Mérito, concedida pelo Presidente Cavaco Silva em 2011, e para o prémio Empreendedorismo Inovador na Diáspora Portuguesa, em 2009.

Esta reportagem foi feita no âmbito de uma parceria DN-FLAD

Últimas notícias

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Mundo
Pub
Pub