Ameaça de ação militar legitima anti-imperialismo de Maduro

Condenações na América Latina depois de declarações de Trump. Vice-presidente Mike Pence começa hoje périplo regional

O presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou na sexta-feira à noite que não exclui usar uma "opção militar" para lidar com a crise na Venezuela. Mas o que soa como uma ameaça contra o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, apenas legitima o discurso anti-imperialista que Caracas tem há mais de uma década, acusando os EUA de estarem a preparar uma invasão de forma a poderem controlar as reservas de petróleo. E em vez de isolar mais Maduro, gerou um coro de condenações por toda a América Latina - incluindo de países que têm estado na linha da frente contra o governo venezuelano por causa da Assembleia Constituinte.

"Desde que [Hugo] Chávez o nomeou seu sucessor, ninguém ajudou tanto Maduro como Trump e este disparate", escreveu no Twitter o diretor para as Américas da Human Rights Watch, José Miguel Vivanco. "Maduro vai aproveitar isto. Por muito menos, ele acusou os EUA de imperialismo. E agora ele tem o presidente dos EUA a falar de ação militar. Quer dizer, isto vai ao encontro à sua narrativa", disse ao Wall Street Journal o antigo subsecretário da Defesa da Administração de Barack Obama, Frank Mora.

"Não vou afastar uma opção militar, temos muitas opções para a Venezuela", afirmou Trump, lembrando que este país é "um vizinho" e que "o povo está a sofrer, estão a morrer". As declarações foram feitas após um encontro com o secretário de Estado, Rex Tillerson, o assessor de Segurança Nacional, H.R. McMaster, e a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, numa pausa nas férias em Nova Jérsia. Entretanto o Pentágono disse não ter recebido novas ordens.

A primeira reação do governo venezuelano veio da parte do ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, que falou de um "ato de loucura, de supremo extremismo" e deixou o aviso. "Como soldado das Forças Armadas estaremos na primeira fila a defender os interesses e a soberania da Venezuela." A reação surgiu na mesma conferência de imprensa em que anunciou a captura de dois militares que lideraram o ataque ao forte de Paramacay, na semana passada.

Já ontem, foi a vez de o chefe da diplomacia, Jorge Arreaza, falar: "As temerárias ameaças do presidente Trump pretendem arrastar a América Latina e as Caraíbas para um conflito que alteraria permanentemente a estabilidade, a paz e a segurança da nossa região." E agradeceu à comunidade internacional pelas "expressões de solidariedade e rejeição do uso da força" no seu país.

Depois de meses de críticas contra Maduro, que se intensificaram após a eleição da Assembleia Constituinte, vários países da América Latina vieram ontem a público rejeitar a ideia de recurso à força para restituir a ordem democrática na Venezuela. Os quatro países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) reiteraram que o único instrumento "aceitável" é "o diálogo e a diplomacia" e repudiaram qualquer opção militar. O Peru, que tem sido um dos principais críticos de Maduro e que anunciou a expulsão do embaixador venezuelano de Lima, lembrou que a ameaça era contra os princípios da ONU. A Bolívia, aliada de Caracas, também condenou as declarações.

A questão será sem dúvida abordada durante o périplo pela Colômbia, Argentina, Chile e Panamá que o vice-presidente norte-americano, Mike Pence, começa hoje. O Panamá foi precisamente o palco da última intervenção militar dos EUA na região: em 1989, as tropas americanas invadiram este país para depor o então presidente Manuel Noriega.

O próprio Maduro não tinha reagido até ontem à noite às declarações do presidente norte-americano, nem mesmo no Twitter, onde se limitou a partilhar artigos ou posições dos ministros sobre o tema. Por seu lado, a oposição, que ontem saiu às ruas em defesa de autarcas condenados pela justiça, parece ter ignorado naquela rede social as declarações de Trump. Já a Assembleia Constituinte considerou que este é "o maior ato de hostilidade cometido pelo império na história das relações entre ambos os países".

A Casa Branca anunciou entretanto que Trump rejeitou falar ao telefone com Maduro. O presidente "falará com prazer com o líder da Venezuela assim que a democracia for restabelecida nesse país", indicou a Casa Branca num comunicado. Washington aplicou várias sanções contra altos funcionários venezuelanos, incluindo o próprio Maduro.

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