"Alugue um Judeu": uma boa ideia com um nome feio

O objetivo é promover o diálogo, através de seminários e palestras, para acabar com preconceitos

O projeto Rent a Jew (Alugue um Judeu, em português) foi criado na Alemanha e, apesar do nome controverso, pretende promover um maior respeito pela comunidade judaica no país, através do diálogo, para acabar com o antissemitismo.

"Acha que o nosso nome soa a ofensivo? Não julgue um livro pela sua capa. É só para chamar a atenção. Agora que a temos vamos dizer porque é que este projeto é uma boa ideia", lê-se no site oficial.

Segundo o Deutsche Welle, apesar de a Alemanha ter a comunidade judaica que mais tem crescido no mundo, tendo agora entre 100 mil e 200 mil membros, muitos alemães admitem nunca ter falado com nenhum judeu.

O Rent a Jew vem proporcionar esta conversa, com palestras e seminários feitos em escolas e outros locais, em que voluntários judeus falam sobre a sua cultura. Os cerca de 50 voluntários do programa têm entre 20 e 40 anos e contam ao público aspetos do judaísmo que podem não ser muito conhecidos - como a dieta típica, como oram e a sua história.

Em vez de falarmos uns sobre os outros, precisamos de falar uns com os outros

Para os voluntários Mascha Schmerling, uma judia nascida na antiga União Soviética que vive na Alemanha há mais de 20 anos, e o alemão Monty Aviel Zeev Ott, este programa é uma forma positiva de educar pelo diálogo.

"É uma oportunidade para desconstruir preconceitos", disse Schmerling. "O diálogo é a chave para qualquer problema. Em vez de falarmos uns sobre os outros, precisamos de falar uns com os outros".

"Não queremos ser definidos simplesmente pela história e ser vistos para sempre pelas lentes do Holocausto", continuou Schmerling, que quer mostrar que os judeus são "pessoas completamente normais".

"E também queremos mostrar um judaísmo mais aberto e colorido", acrescentou Ott. "O judaísmo é tão diversificado".

Não queremos ser vistos para sempre pelas lentes do Holocausto

Os dois perguntam aos alunos da escola secundária de Solingen, em Düsseldorf, quais são alguns dos estereótipos sobre judeus em que acreditam. Um aluno diz que os judeus são todos educados, ao que Schmerling responde que, infelizmente, "nem todos são", e outro fala da ideia que persiste na cultura ocidental de que todos os judeus têm dinheiro.

"Bem, esse é mesmo um preconceito antigo", respondeu Schmerling. "Mas infelizmente não é verdade. Se havia algum na minha família não foi passado às outras gerações". "Não seria bom se todos recebessem um saco de dinheiro quando se convertessem?", acrescentou Otts, num tom de brincadeira.

Triplicaram, em um ano, o número de casos de violência contra judeus

O nome do projeto é "provocador" porque este quer "promover conversações", segundo Ott. "As pessoas não conseguem nem dizer [a palavra] 'judeu', mas tudo depende do contexto", explica.

Falar deste assunto de uma maneira menos tensa é um dos objetivos do projeto, segundo Alexander Rasumny, um dos criadores.

Rasumny descreveu o Rent a Jew à NBC como "um projeto de prevenção a longo prazo" face ao aumento do antissemitismo, de preconceitos e de ideais de extrema-direita que se tem notado na Europa.

Aumento esse que se traduziu, em termos práticos, na quase triplicação, em um ano, do número de casos de violência contra judeus ou propriedade de judeus na Alemanha. Segundo a NBC, em 2015 foram denunciados 2083 ataques contra a comunidade judaica, quando em 2014 o registo era de 691.

Ott diz que sentiu um destes ataques na pele, quando três homens o cercaram no meio da rua e começaram a ofendê-lo.

"Há pequenas partes em Berlim em que já não entro com o meu quipá" (o chapéu geralmente usado pelos judeus), disse Ott aos alunos. "A nossa segurança é a prioridade nestas situações".

A resposta ao projeto tem sido muito positiva e os alunos parecem sair das conferências com uma nova perspetiva sobre o que é ser judeu.

"Não só aprendi como é o dia a dia no judaísmo como também aprendi que muitas coisas que ouvi sobre judeus não são verdade", disse Mohamed, um jovem alemão de 17 anos.

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