A antropóloga italiana que se descobriu artista em terras lusas

Giulia Cavallo vive há dez anos em Lisboa

Natural de Turim, a comuna do Norte de Itália que há 118 anos acolhe a sede da Fiat, Giulia Cavallo sempre teve um interesse algo inexplicável pelo cristianismo em África. Começou por estudar Filosofia no seu país natal, mas aquilo que sempre lhe interessou foi antropologia. Habituada a fazer trabalho de voluntariado com os sem-abrigo em Turim, fez a tese de licenciatura sobre três meses que passou com missionários no Quénia a investigar o catolicismo. Em 2004, candidatou-se para trabalhar num projeto de desenvolvimento com a União Geral das Cooperativas em Moçambique. E assim foi parar a Maputo. Ali travou conhecimento com a língua portuguesa, pela qual se apaixonou. Ali conheceu o ex-marido e pai da filha Celina. Ali cresceu o interesse pela igreja Zione, que investigou a fundo para os estudos de antropologia. Por causa desses estudos e desse interesse em Moçambique veio parar a Lisboa, cidade de onde, passados dez anos, agora já não quer sair.

"A minha orientadora aconselhou-me a vir para Lisboa para estudar Moçambique. E assim fiz. Estudei no ISCTE e ICS e tive bolsa de doutoramento. Em Maputo fui estudar a igreja Zione", conta Giulia Cavallo, de 38 anos, explicando do que se trata. "É uma igreja com uma identidade muito forte. Veio dos EUA para a África do Sul e posteriormente estendeu-se a Moçambique. É uma igreja muito informal, até na sua própria hierarquia. É muito ligada às redes familiares. Eles são muito ligados aos espíritos, são como que curandeiros, só que cristianizados. O discurso desta igreja é que, se tivermos uma doença qualquer, se o espírito não estiver bem, então não adianta tomar só medicamentos. Eles negoceiam com os espíritos. Não exorcizam. É uma negociação permanente e contínua. Os antepassados são o guia do pastor. Vi situações de doentes psiquiátricos que eram levados à igreja pelas famílias", conta, acrescentando que "as missas deles são mais próximas das dos evangélicos e protestantes do que das dos católicos".

Regressada a Lisboa em 2011, passou por uma multinacional americana, onde tratava do mercado italiano. Mas o trabalho que fazia não a preenchia e preferiu ir para o desemprego. Já separada, com a filha para criar, começou a dar voltas à cabeça. A pensar noutras coisas que gostava de fazer. "Eu sempre desenhei. E a certa altura pensei: se eu não consigo fazer um caminho, talvez deva ir por outro. E comecei a desenhar. Desde que o faço sinto-me muito bem. É como se tivesse libertado alguma coisa que, durante muito tempo, esteve castrada dentro de mim", confessa, sentada à mesa de um café da Baixa Chiado.

Uma das primeiras exposições que fez foi em novembro de 2015, no Café Tati, no Cais do Sodré. "Era uma exposição sobre árvores. Gosto de oliveiras, jacarandás, pinheiros, embondeiros. Alguns dos desenhos são de um embondeiro com um bebé dentro. É uma homenagem à minha filha, pois a única vez em que realmente estive serena foi durante a gravidez. Daí a ideia", conta, enumerando outras exposições que, entretanto, fez.

Começou depois a inspirar-se na cidade de Lisboa para fazer os seus desenhos. "Tenho aí uns 18 postais sobre Lisboa." De momento, trabalha em casa. Vende trabalhos online e presencialmente. Aceita encomendas. "Às vezes pedem-me para contar histórias através dos meus desenhos." Sobre a cidade e o país que a acolheram diz: "Gosto de Lisboa. A minha língua é hoje uma mistura de duas línguas. Gosto de os portugueses serem reservados e pouco invasivos. Mas também podiam ser mais expressivos, deixar fluir. Não acredito muito nas nacionalidades. Quando vou a Itália dou por mim dentro do avião da TAP a perguntar: mas afinal de onde é que eu sou?"

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