Univision: a TV latina que lidera nos EUA esteve à beira da falência

Jornalista Jorge Ramos é o mais mediático pivô da Univision

O grupo de media que detém o canal de televisão dirigido ao público hispânico mais visto nos Estados Unidos comprou, no início desta semana, o jornal satírico The Onion. Um negócio necessário para chegar às novas gerações

É a cadeia de televisão falada em espanhol mais vista do mundo e a que regista atualmente mais audiência nos lares norte-americanos de origem hispânica. Embora a base da sua programação consista em produtos tradicionais (novelas, informação e conteúdos de entretenimento), a Univision concretizou nesta semana um negócio que pretende alargar o seu público-alvo aos millennials (geração nascida entre a década de 1980 e 2000, maioritariamente nativa digital e com forte propensão para o consumo de conteúdos online): a cadeia de televisão nascida no Texas adquiriu 40% do jornal satírico The Onion (que, desde 2013, existe apenas como plataforma digital). Uma manobra que é vista como uma forma de complementar a oferta digital do grupo, que se lançou em 2013 na produção de conteúdos digitais com a criação da plataforma Fusion, em parceria com a norte-americana ABC.

"The Onion tem uma equidade de marca que lhe permitiu adaptar-se aos media que satiriza", afirmou Daniel Eilemberg, diretor executivo da área digital e vice-presidente da Fusion. "Tem uma fidelidade e valor, combinados com uma empresa muito interessante, que é algo que é cada vez mais importante para a Univision e para a Fusion", acrescentou ainda o responsável.

De acordo com os últimos censos, 65% dos 52 milhões de hispânicos a viver nos EUA tem idades compreendidas entre os 18 e os 34 anos. Ao contrário das gerações anteriores, muitos são bilingues ou têm o inglês como língua principal. De relembrar que os hispânicos e latino-americanos representam 17,37% da população dos EUA.

A aquisição do The Onion antecede a entrada em bolsa da Univision, que estava inicialmente prevista para o final do ano passado mas que foi adiada devido às condições adversas do mercado. De acordo com o The Hollywood Reporter, a empresa liderada por Randy Falco espera, ao colocar ações no mercado, valer 18,5 mil milhões de euros. De acordo com a Forbes, o grupo de media lucrou, em 2014, 2,7 mil milhões de euros e teve um resultado operacional de 1,1 mil milhões de euros.

As origens da Univision remontam a 1955, ao estado norte-americano do Texas. Raúl Cortez fundou o KCOR-TV, canal que estava prestes a falir quando Emilio Nicolas e Emilio Azcárraga Vidaurreta o compraram, transformando-o depois na Spanish Internacional Network. Através da aquisição de várias estações de televisão locais e da entrada no capital da empresa da gigante de media mexicana Televisa, em 1987 o grupo muda de nome, passando a designar-se Univision.

No final da década de 80, no entanto, a empresa esteve à beira da falência, devido à saída da Televisa. Seguiram-se quase duas décadas de entradas e saídas de capital, batalhas em tribunal por licenças. Até que, em 2006, a Univision foi comprada pela Broadcasting Media Partners Inc., um consórcio de fundos de investimento. Apenas quatro anos depois, a Univision alcança um feito impensável aquando da sua génese: ter um programa no primeiro lugar do top de audiências. Aconteceu em 2010, com a transmissão da partida México-Equador. A principal rival da Univision é, atualmente, a cadeia de televisão Telemundo, detida pelo grupo NBC.

Contra Trump, marchar, marchar

O inimigo número um da Univision tem sido, nos últimos meses, aquele que é o favorito dos candidatos republicanos às eleições presidenciais norte-americanas. Donald Trump tem um histórico recente de divergências com o grupo de comunicação, que começaram em agosto passado, quando Jorge Ramos, jornalista de origem mexicana naturalizado norte-americano, foi expulso de uma conferência de imprensa no Iowa.

Nessa ocasião, o empresário foi questionado por Ramos sobre a sua posição relativamente às políticas de imigração (Trump, recorde-se, chamou "traficantes" e "violadores" aos que procuram passar do México para os Estados Unidos). O jornalista da Univision acabou por ser retirado da sala pelos seguranças do candidato republicano, só tendo regressado 15 minutos depois. Foram também os comentários xenófobos de Trump que motivaram uma outra guerra com o grupo de comunicação hispânico... ainda por resolver. Depois das declarações do candidato republicano, a Univision decidiu cancelar a transmissão do concurso Miss Universo. Trump, que comprou 51% dos direitos do concurso pertencentes à NBC para, em setembro, os vender à agência de talentos WME-IMG, não deixou passar em branco o boicote da Univision, processando o grupo e exi- gindo uma indemnização milionária - 463 milhões de euros.

Trump alega quebra de contrato e difamação. Em dezembro, a Univision interpôs um recurso, alegando que foram as declarações do multimilionário que fizeram que a NBC decidisse não transmitir o concurso. "Se a Miss Universo não conseguiu manter as condições anteriores de ser transmitida num canal falado em língua inglesa, o único culpado é Trump", pode ler-se no comunicado divulgado pela Univision. Representadas pelos melhores advogados, ambas as partes parecem não quer ser as primeiras a desistir desta contenda.

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