Descoberta molécula que dificulta combate à doença infecciosa 'leishmaniose'

Investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) identificaram uma molécula libertada pelo parasita da doença infecciosa 'leishmaniose', que inativa determinadas células responsáveis pela defesa do organismo e dificulta o combate à doença.

A molécula identificada - um glicolípido (misto de lípidos com açucares) - é libertada pelo parasita 'leishmania', que origina a 'leishmaniose', e tem a capacidade de bloquear a função das células de defesa, designadas por 'natural killer T' (iNKT), que atuam nestes casos, disse à Lusa a coordenadora do projeto, Anabela Cordeiro da Silva.

Com esta descoberta, os investigadores pretendem criar um anticorpo que neutralize o glicolípido libertado pelo parasita, usado como arma para bloquear as defesas que o organismo produz, inativando-o e impedindo que escape ao sistema imunológico.

A 'leishmaniose' é uma doença infecciosa pode ser transmitida entre cães e humanos, através da mosca da areia ou de sangue contaminado, disponível, por exemplo, nos bancos de sangue ou nos órgãos transplantados, explicou.

De acordo com a investigadora, a doença, que existe a nível cutâneo (pele), muco cutâneo (pele e mucosas) e visceral (órgãos viscerais, como o fígado, o baço e o intestino), torna-se crónica caso não seja tratada convenientemente.

indicou, os casos da doença cutânea e a muco cutânea concentram-se, essencialmente, na América do Sul e África, enquanto a visceral é registada em maior número na bacia do mediterrâneo (Portugal, Espanha, França, Itália e Grécia), na Índia, no Brasil, no Sri Lanca e em Bangladesh.

Em Portugal, "infelizmente", não se faz o rastreio para a 'leishmania', o que investigadora considera "uma falha grave" do Sistema Nacional de Saúde, em termos preventivos.

Anabela Cordeiro da Silva indicou ainda que, neste momento, as únicas vacinas contra esta doença são as caninas, que têm uma eficácia reduzida e "mascaram" o estado clínico do animal.

Os fármacos, por sua vez, são "muito tóxicos para os rins e para o fígado", existindo, inclusive, "vários locais no mundo" onde o parasita já desenvolveu resistências aos mesmos.

Segundo Anabela Cordeiro da Silva, a Miltefosina é o único medicamento existente que pode ser usado de forma oral, no entanto, para além de ser utilizado no tratamento de cães (limitando a utilização humana), este pode levar à teratogenicidade (deformações nos recém-nascidos).

"É necessário colocar no mercado novos fármacos", afirmou, acrescentando que o grupo de investigação do qual faz parte já conseguiu desenvolver um composto "muito promissor" para tratamento da 'leishmaniose' e para da doença do sono, que pode ser administrado por via oral, sem os efeitos adversos referidos.

Para os investigadores, é importante conhecer em detalhe os mecanismos que os agentes infecciosos utilizam para contornar as defesas naturais do organismo, de forma a desenvolver novas abordagens terapêuticas e abrir novos caminhos no estudo do próprio sistema imunológico, no controlo de doenças autoimunes ou diabetes, por exemplo.

"Nunca é demais conhecer as estratégias adotadas por estes microrganismos" visto que "podem ser úteis para desenvolver métodos mais eficazes de combate, ou para serem aplicadas noutras áreas, ao serviço da saúde", concluiu Anabela Cordeiro da Silva.

Ao todo, estiveram envolvidos neste estudo sete membros do i3S e uma investigadora do Instituto Necker, de Paris, tendo este sido desenvolvido no âmbito de um projeto cofinanciado pelo Programa Operacional Regional do Norte (Norte 2020), através do Portugal 2020 e do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).

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