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A PRAIA DA MINHA INFÂNCIA

Todas as praias, a praia

por Inês Pedrosa  

Inês Pedrosa recorda como, em criança, lia 'A Menina do Mar' "enquanto lambia o sal do braço"
Inês Pedrosa recorda como, em criança, lia 'A Menina do Mar' "enquanto lambia o sal do braço" Fotografia © DR

Do Estoril a Benidorm. Estatisticamente, o Estoril é a praia da infância de Inês Pedrosa. Mas foram muitos os areais onde a escritora se divertiu em criança, sempre de livro na mão. E a ouvir a voz de Rui Reininho no gravador de cassetes.

A minha infância foi uma imensa praia, com o mar musicando a letra das gargalhadas dos primos e dos amigos, ou o grito "bolas de Berlim fresquinhas!" agitando o calor da areia. Não havia ASAE, e nenhum de nós sofreu por comer esses bolos sem controle. Estoril, Azarujinha, Sesimbra, Portinho da Arrábida, Santa Cruz, Quarteira, Torremolinos, Benidorm - em todas estas praias fui tão criança que ainda não deixei de o ser: continuo a encontrar a felicidade sempre que mergulho no mar e a procurar pedras e algas brilhantes para enfeitar castelos que se derretem como gelados.

Estatisticamente, a praia da minha infância é o Estoril: para lá rumávamos todos os domingos de sol, mesmo no inverno. Lembro-me de ler, deliciada, A Menina do Mar de Sophia enquanto lambia o sal do braço, depois de nadar até à última boia. Nunca estive numa praia sem um livro; nem sei se as minhas memórias de verão são reais ou tiradas de páginas lidas. À Azarujinha, antecâmara do Estoril, levavam-me nos primeiros anos de vida, porque era cheia de poças e rochas que empurravam o perigo do mar verdadeiro para longe. Ao Portinho da Arrábida íamos em excursão, de manhã cedo, com o meu pai a refilar, de chapéu de sol e lancheira em punho, contra a lentidão da saída; as tardes passavam-se a ler à sombra dos pinhais, depois do piquenique que se seguia aos banhos na água fria e transparente. Santa Cruz era a praia da minha madrinha, de vagas alterosas: mal a água nos subia aos joelhos já um adulto vinha arrastar-nos para a areia, com sustos de afogamento. Em Quarteira quisemos uma vez, os meus primos e eu, tocar a linha do horizonte no fim do mar: fomos até ao último barco ancorado e regressámos a toque de apito para secarmos sob a sova do meu tio, apoplético perante a insubmissão daquele bando de crianças. Em Torremolinos senti o primeiro cheiro de liberdade: as mulheres desfilavam quase nuas pelo areal castanho escuro, os jovens beijavam-se à luz do dia, o mar subia à temperatura da pele e não havia filas para o leite nem para o peixe (como havia no Algarve dos anos sessenta, convém lembrar, que a memória em Portugal é ainda mais fraca do que o PIB). Lembro-me melhor da adolescência do que da infância, e por isso as praias do Sul de Espanha, onde me levaram de menina a moça, são as que melhor recordo - nelas descobri Jorge Amado e Nietzsche, que na minha cabeça de quinze anos eram complementares e combinavam com a ânsia de noite e aventura que me guiava os sonhos.

O tempo da minha juventude foi o das dunas como divãs e dos gravadores de cassetes onde a voz de praia de Rui Reininho jurava que mais vale nunca mais crescer. Não havia Dia dos Namorados nem educação sexual; o amor atingia-nos como um mergulho mediterrânico. Acampávamos em grupo por praias selvagens, invadíamos as piscinas dos hotéis de luxo, tínhamos honra em ser expulsos e cantávamos até ao fim da noite diante dos barcos iluminados. Mas parece que isso já não é a infância. Na praia aprendi a perder a conta aos anos e ao território conhecido. A olhar de frente o sol e as ondas. A praia da minha infância não tem nome nem idade; é um acontecimento sem história nem fim.


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