por Sónia Simões
Apesar de os países desenvolvidos poderem ser já um exemplo em termos ambientais, há 5800 milhões de pessoas sujeitas a condições que podem, a médio prazo, gerar graves crises financeiras, sociais e ambientais. Ainda assim, referiu ontem o professor Filipe Duarte Santos no debate sobre o estado do ambiente, realizado no auditório do Diário de Notícias, em Lisboa, há que ser "otimista". Mas realista.
No debate que rematou a Grande Investigação DN, publicada diariamente desde domingo, o especialista em alterações climáticas caracterizou os problemas que atingem a maior parte da população mundial. Chama-lhe "quadrado da insustentabilidade"e assenta em quatro grandes fatores críticos: as desigualdades de desenvolvimento e riqueza (por exemplo a questão da fome que atinge perto de 1000 milhões de pessoas); a insustentabilidade dos sistemas de energia (o acesso e o preço); as alterações climáticas e a insegurança alimentar (relacionada com a escassez de água, a perda de biodiversidade e a escassez de recursos renováveis e não renováveis). "O que está a acontecer é que temos bons exemplos de desenvolvimento sustentável, sobretudo nos países desenvolvidos, onde se inclui Portugal, mas estes são apenas 1200 milhões de pessoas", referiu. "Uma parte pequena, se pensarmos que há 7000 milhões de habitantes e se perspetiva que em 2050 sejam 9000 milhões", disse.
"O que me parece é que a nível global o desenvolvimento é insustentável e se não alterarmos o paradigma a nível global, vamos ter crises profundas." Parte da culpa, atribui à falta de um plano a longo prazo e à perda de tempo em programas efémeros em continuidade : "Há medidas e soluções, mas não existe uma governação eficaz." Confrontado pelo moderador António Perez Metelo sobre a questão das economias emergentes, como a China, Filipe Duarte Santos revelou que há cada vez mais "uma consciência destes problemas em todo o mundo". Apesar de, na China, existir o maior número de cidades "com poluição de uma dimensão tremenda", há vários movimentos cívicos que reivindicam medidas ambientais. "A China é, neste momento, o maior investidor a nível mundial em energias renováveis, passou facilmente os EUA", lembra o professor. E, apesar da poluição, alerta: "No ocidente não temos experiência política de governar um país com 1300 milhões de pessoas e temos de ter respeito por esse desafio." Ao longo do debate, o investigador sublinhou ainda a urgência na fiscalização - apesar de uma melhoria no Ministério do Ambiente - e no sistema de justiça. "Como cientista, acho extraordinário ainda não ter havido acordo dos partidos nesta matéria." Para rematar, deixa uma mensagem otimista: "Há possibilidade de as atuais perspetivas da Europa serem já consequência desta crise de insustentabilidade. E que se tomem medidas."
Filipe Duarte Santos
- Tem 69 anos
- Professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e presidente do Departamento de Física
"Conjugar austeridade com políticas ambientais"
"Crise da sustentabilidade é no fundamental crise política"
Austeridade verde para um Portugal esbanjador
"Mentalidade é tomar decisões a pensar só no imediato"
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