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Amarante

Carro que atingiu fiéis na procissão era de "um rapaz da terra" que vinha "muito depressa" (C/FOTOS)

por Lusa  

O carro que atingiu várias pessoas numa procissão em Amarante era de um "rapaz da terra" que vinha "muito depressa" e se "atrapalhou" ao ver os fiéis na estrada, provocando uma "desgraça" que acabou com a Páscoa da freguesia, relataram populares.

"Antes, até chegou outro carro que não era da terra e ficou parado com os quatro piscas por causa da procissão. Este moço era da terra, é muito educado, mas muito tolo a andar. Vinha muito depressa", descreveu à agência Lusa Glória Santos, sobrinha do padre da freguesia de Vila Chã do Marão, que hoje está de cama, abalado com o acidente, a sentir-se "culpado" por ter organizado a cerimónia que terminou em tragédia. Foi a primeira vez que esta procissão se realizou na altura da Páscoa, mas o pároco, que está na freguesia há mais de 40 anos, costumava organizar procissões das velas "no verão" e "nunca aconteceu nada", acrescentou. Durante a procissão de sexta-feira "não estava a chover", de acordo com Glória Santos, mas o excesso de velocidade com que a viatura subia a rua tornou difícil a paragem a tempo de evitar o pior.

"Até parecia uma bomba, parecia que se viam faíscas. Fui a correr pela estrada acima, nem quis ver nada, vi logo que tinha sido uma miséria. Vinha bastante atrás, apercebi-me do estrondo e fugi", afirmou Maria Celeste Leite. A moradora acha que "se devia ter fechado o trânsito" e garantiu que "nunca mais" vai "em procissão nenhuma", porque "é um perigo". "Já tinham feito outras procissões das velas, no mês de Agosto, por esta estrada. Nunca houve problemas e a estrada nunca tinha sido cortada. Depois do acidente fecharam o trânsito, mas se tinham fechado antes já não se tinha dado isto. É um perigo andar assim na estrada", observou Maria Celeste Leite. António Marinho Ribeiro, de 70 anos, ia "a meio da procissão" e praticamente só ouviu o "barulho do carro". "Eu ia a meio da procissão, o barulho foi muito. Só ouvi o barulho do carro e vi-o, depois, atravessado na estrada. Não sei se foi por querer ou não, mas era bom saber", desabafa, à porta de casa onde só chegou às 08:00, depois de ter passado a noite entre os hospitais de Penafiel e Amarante, para onde foi transferida a sua mulher.

O homem, emigrante em França, estava emocionado e nervoso antes de partir rumo ao Hospital de S. João, no Porto, para tentar saber o estado da esposa. "Ninguém ma deixou ver ou me disse como ela estava. Consegui saber que tem duas pernas partidas. Ela ia mais à frente. Eu não tive nada, mas deu-me uma fraqueza que nem consigo conduzir", explica, referindo que viaja para o Porto com duas vizinhas que se disponibilizaram para o levar. O acidente provocou três mortos e oito feridos graves, e o facto de ter sido provocado por um rapaz "da terra" apenas serviu para deixar as pessoas da freguesia mais tristes e cabisbaixas. Foram muitos os que hoje passaram pelo local do acidente, onde ainda está uma cruz e muitas velas usadas na procissão, mas todas as conversas decorriam entre sussurros e cabeças baixas.

"Tenho pena de quem morreu e de quem está ferido, e dele, que tem a vida estragada", lamenta uma das fiéis que falou com a Lusa mas que não se quis identificar. "Foi uma desgraça muito grande. Ele tentou desviar e foi contra o muro, e se não era assim ainda matava mais gente. Mas depois o carro virou e foi contra as pessoas. Atrapalhou-se quando viu a procissão, mas não conseguiu parar", descreveu a mulher. O carro circulava na estrada em linha recta, ligeiramente inclinada, e ainda ultrapassou outra viatura que estava parada com os quatro piscas ligados, apenas se apercebendo nessa altura da passagem da procissão, acrescentou. Está convencida de que "o rapaz não fez por mal", mas diz que ele "gosta de acelerar". Admite, ainda, que devia ter-se pensado em levar um carro à frente da procissão, para evitar problemas: "Foi um descuido, havia de vir um carro à frente a anunciar", defende. Ao que na Lusa apurou, os funerais das vítimas só se devem realizar terça ou quarta-feira, porque haverá necessidade de realizar autópsias.


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