por FILIPA AMBRÓSIO DE SOUSA e LUÍS FONTES
Os sete arguidos do processo mais duradouro da história da justiça vão estar hoje frente-a-frente com a juíza Ana Peres, que decide uma de duas coisas: absolvição ou condenação. Embora ansiosos, esperam que seja feita justiça pelo que sofreram.
De um lado, as vítimas da Casa Pia - 32 jovens, em que sete vão estar presentes - aguardam este dia da leitura da sentença como um ponto final de um trauma. Do outro, os sete arguidos acusados no processo esperam que seja posto um fim neste pesadelo de oito anos. Prova testemunhal versus prova documental? A juíza vai decidir. O DN foi saber como se sentem os arguidos, a horas da leitura da decisão final. Decisão que já conheceu dois adiamentos. No Campus de Justiça está montado um dispositivo de segurança nunca antes visto nos novos tribunais, inaugurados em Julho de 2009. A maioria dos arguidos acredita na absolvição, à excepção de Carlos Silvino, acusado de 639 crimes, alguns deles confessados.
Carlos Cruz
O dia de ontem passou-o a descansar. Não está ansioso nem nervoso. Mantém o que sempre disse ao longo destes oito anos. "Não fiz nada do que me acusam e estou de consciência totalmente tranquila", desabafa ao DN Carlos Cruz, 68 anos, acusado de seis crimes. O que espera do dia de hoje? Não sabe bem o que responder mas avança - nas entrelinhas - que, se for condenado, vai recorrer até à "última instância". Para já, amanhã, vai disponibilizar o processo num site criado por si ,"para que os portugueses conheçam a verdade". Há oito anos, esses mesmos portugueses conheciam-no bem como apresentador de televisão e homem comunicador que era e que pelo meio conseguiu ainda ganhar a candidatura de Portugal ao Euro 2004. E hoje Portugal continua a conhecê-lo bem por razões menos abonatórias. A mulher, Raquel Cruz, a filha Mariana, de oito anos, estão no Algarve, longe dos holofotes. A filha mais velha, Marta, está no Brasil. "Tenho receio do peso que a opinião pública possa ter na cabeça da juíza", concluiu.
Manuel Abrantes
Nos oito anos do processo, o ex- -provedor adjunto da Casa Pia foi pai pela terceira vez - a sua filha mais nova conta apenas com 18 meses - e foi avô. Os seus filhos mais velhos contam actualmente com 28 e 33 anos. Hoje, é sócio de um rent-a-car, tentou contrair um empréstimo bancário - recusado pelo Millennium BCP pelo estatuto de arguido que está colado a si desde 2003 - e está reformado da função pública, carreira que exerceu durante 33 anos. Os olhos enchem-se de mágoa e de raiva quando pensa nas alegadas vítimas que o acusam. "Houve momentos em que tive vontade de lhes partir a cara", diz o arguido ao DN. "Sinto olhares de lado e, por exemplo, não costumo ir levar o meu neto à escola porque as crianças são cruéis." Da juíza Ana Peres espera que seja feita justiça, mas está muito céptico. "Devido à aceitação das alterações dos factos nesta fase final do julgamento, estou com algum receio."
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