por LÍLIA BERNARDES com PAULA SÁ
Enquanto na Assembleia da República o PS recusa qualquer comissão de inquérito ao "Face Oculta", os socialistas da Madeira votaram ontem a favor de uma investigação parlamentar aos negócios de Manuel Godinho com o Governo de Alberto João Jardim. "Quem não deve, não teme", argumenta o PS/Madeira. Em Lisboa, os socialistas falam de "autonomia".
O PCP/Madeira lançou a proposta e o PS regional votou a favor: a abertura de um inquérito parlamentar para se apurar se houve, ou não, da parte da Administração Pública regional, contrapartidas, financeiras ou outras, para as empresas de Manuel Godinho na Madeira. Os deputados comunistas apresentaram a proposta ontem no parlamento regional. E a iniciativa foi chumbada pela PSD/M. Todos os partidos da oposição, incluindo o PS/M, votaram favoravelmente a proposta.
O voto favorável do PS madeirense é o dado mais inesperado da votação - até porque contraria a postura dos socialista nacionais de que o processo "Face oculta" deve manter-se na estrita esfera judicial. Mas Jacinto Serrão, deputado regional socialista, argumenta que o documento apresentado pelos comunistas "indicia matéria do foro judicial, nomeadamente, suspeitas de favorecimento de entidades regionais a esta empresa [a de Manuel Godinho]", que merecem investigação. As comissões de inquérito, sustentou ao DN, "servem para analisar este tipo de situações". E "como quem não deve não teme, não entendo por que motivo o PSD votou contra", reforça o deputado regional.
Em Lisboa, o deputado socialista Ricardo Rodrigues é lacónico no comentário à decisão do PS regional: "O PS da Madeira é autónomo e, por isso, faz o que quer". De resto, o vice-presidente da bancada do PS na Assembleia da República não quis fazer outro comentário àquela decisão.
Leonel Nunes, o deputado do PCP responsável pela iniciativa, garante que o voto contra do PSD/Madeira não é um ponto final no caso. "Pedi ao presidente da Comissão de Regimentos e Mandatos para suspender a minha imunidade parlamentar. Estou ao dispor do Ministério Público (MP). O MP não pode fingir que desconhece as acusações que (ontem) eu fiz no Parlamento", afirmou ao DN. Mas o que é que Leonel Nunes disse no plenário da Assembleia Legislativa? Afirmou, por exemplo, que a "rede de Manuel Godinho", nos níveis de responsabilidade já identificada pela operação "Face Oculta", chegaram à Madeira através do "lixo". Explicou que o grupo está "implantado directamente" no arquipélago, tendo com a empresa "Resatlântico - Gestão de Resíduos, Lda".
"Da parte do Governo Regional da Madeira", sublinhou Leonel Nunes, "terá havido uma particular predilecção" pelo grupo de Manuel Godinho e pelas suas perspectivas para alargar e para desenvolver projectos ligados à gestão de resíduos na Madeira. "Tal predilecção" é, desde logo, "evidente através da prontidão com que foram facilitadas aberturas de portas para estabelecer imediatos protocolos e contratos com entidades governativas", acusou.
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