por MANUEL CARLOS FREIRE
O universo dos sem-abrigo que participaram na guerra colonial é pouco conhecido e de número indeterminado. A Liga dos Combatentes, com o apoio de várias instituições de solidariedade civis que há muito trabalham nessa área, desenvolve um projecto específico para os sem-abrigo combatentes desde meados de 2008, que já conseguiu resultados inesperados
José Freitas, a viver há 10 anos como um sem-abrigo na estação de Santa Apolónia, em Lisboa, optou há dias por viver num centro de acolhimento do Exército de Salvação e com cinco antigos combatentes que, como ele, estiveram na guerra colonial.
A missão de retirar José Freitas da rua, após anos e anos de tentativas infrutíferas por parte de várias instituições de solidariedade social, concretizou-se na passada sexta-feira e foi o culminar de "61 dias" de esforço por parte de técnicos da Liga dos Combatentes, contou ontem ao DN o major António Correia, psicólogo clínico ligado ao Centro de Estudos e Apoio Médico, Psicológico e Social (CEAMPS) da Liga dos Combatentes (LC).
"Há diferenças, de linguagem e atitude, entre sem-abrigo combatentes e os outros, identificadas pelas outras instituições" que trabalham nessa área e que ajudam a explicar o seu insucesso junto desse universo dos sem-abrigo, sublinhou António Correia. "Quando eles começam a falar das experiências da guerra, as emboscadas... nós entendêmo-los. E é com essa linguagem que conseguimos chegar até eles", enfatizou o psicólogo militar, oficial da Força Aérea no activo, adiantando que muitos dos técnicos e voluntários são militares ou familiares de militares que conhecem o quadro mental de quem já esteve nas fileiras.
José Freitas, 58 anos, é um antigo soldado do Regimento de Infantaria de Tomar e do Batalhão de Caçadores 3855, de Abrantes, tendo cumprido uma comissão de serviço em Angola entre 1972 e 1974. Os registos das equipas de acção social indicam que vivia há mais de 10 anos junto à estação de caminhos-de-ferro de Santa Apolónia, em Lisboa.
"Hoje sentimos a necessidade de mostrar o nosso trabalho (...) Não é qualquer equipa que, ao fim de 61 dias de trabalho persistente com um combatente sem-abrigo que está na rua há mais de 10 anos consegue tamanho sucesso. Orgulhamo-nos bastante disso, já tivemos outros sucessos semelhantes, mas este caso é diferente", enfatizou António Correia.
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