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ANSELMO BORGES

Francisco: a alegria do Evangelho (2)

por ANSELMO BORGES  

O Papa Francisco é hoje, senão a figura mundial mais popular, uma das mais populares e influentes. Como escrevi aqui na semana passada, a sua recente exortação apostólica "A alegria do Evangelho", em que traça os caminhos fundamentais do seu pontificado, foi objecto de imenso interesse e análise por parte dos media mundiais de referência. E fizeram-no sobretudo na parte dedicada à situação económico-financeira e social do nosso mundo.

A causa de Deus é a causa do ser humano, de todo o ser humano, feliz e pleno, começando, evidentemente, pelos mais pobres e marginalizados, os das periferias. Essa tem de ser também a causa da Igreja. Por isso, escreve: para quem quer seguir o Evangelho "há um sinal que nunca deve faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e deita fora". "Estamos chamados a descobrir Cristo neles, a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas." Por isso, "hoje devemos dizer "não a uma economia da exclusão e da desigualdade social". Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento de um idoso sem-abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Hoje tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, em que o poderoso engole o mais fraco", e a consequência é que "grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas" e "os excluídos não são "explorados", mas resíduos, "sobras"".

Denuncia a nova tirania de um capitalismo desregulado e desenfreado. Há quem pressupõe que "todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismo sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar", pois o ideal egoísta desenvolveu "uma globalização da indiferença."

Este desequilíbrio "provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras." Neste sistema devorador para aumentar os lucros, quem ou o que é frágil, como o meio ambiente, fica indefeso perante "os interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta".

Está aí uma cultura do bem-estar que reduz o ser humano a consumidor e que nos anestesia, a ponto de perdermos a serenidade, se o mercado nos oferece algo que ainda não possuímos. Uma das causas desta situação é a idolatria do dinheiro. "A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano". Criámos novos ídolos: o bezerro de ouro é na sua nova versão "o fetichismo do dinheiro e a ditadura de uma economia sem rosto e sem um objectivo verdadeiramente humano". Ora, "o dinheiro deve servir e não governar". Como escreveu São João Crisóstomo, "não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos".

Para uma sociedade mais humana, é essencial a ética, uma "ética não ideologizada". E previne: "Enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os povos será impossível erradicar a violência. Sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão."


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