por MANUEL MARIA CARRILHO
A ideia que fica do impressionante magma de cartazes, slogans e cantares das manifestações de sábado passado é que há algo bem no miolo desta crise que, como se está a ver, não vai lá com as respostas que se lhe têm dado.
Algo que resiste aos protestos e à indignação das pessoas, integrando com surpreendente facilidade a sua explosiva expressividade. Algo que dissolve o confronto ideológico, e o reduz a meras variações de uma gestão que se pressente que passa ao lado do essencial. Algo que revela, nos interstícios das repetidas e sonoras proclamações democráticas, uma impotência colectiva como não há memória.
Isto talvez aconteça porque, se por um lado não é difícil reconhecer que o mais indiscutível traço da crise que vivemos é o da sua imensa complexidade, por outro lado nunca se viu tanto simplismo no modo como ela tem sido enfrentada.
Um bom exemplo disto encontra-se no modo como se olha hoje para os partidos políticos. Permanentemente criticados, há mesmo quem se admire que eles resistam, tantas e tão consensuais são as debilidades e os vícios das democracias que parecem ter a sua origem no sistema partidário: no seu fechamento, na sua distância face à sociedade civil, no seu clientelismo, no seu torpor ideológico, etc.
São críticas com fundamento. Mas é bom ter consciência de que são críticas que se repetem há mais de cem anos. Já então elas eram absolutamente centrais no debate político europeu, que também já então denunciava uma aguda descredibilização dos partidos, bem como as perversidades do parlamentarismo dependente dos partidos. No nosso caso português, basta visitar um pouco a história da 1.ª República e consultar o argumentário do salazarismo, sobretudo da primeira fase, para o verificarmos com grande evidência.
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