por JOÃO CÉSAR DAS NEVES
O mundo hoje tem enorme necessidade de um recurso essencial, infelizmente bastante descurado. Fala-se muito de água, ar, petróleo, urânio, cereais, até metais de terras raras, mas pouco se refere aquilo que, se vier a faltar, destruirá de vez a humanidade. O recurso não é escasso, pois existem vastas jazidas. Mas é difícil de isolar por vir misturado com outros elementos e, pior, tende a evaporar-se quando é retirado das condições naturais. Para o compreender é preciso analisar a situação actual.
Portugal sofre a crise mais séria das últimas décadas. Isso significa que muita gente sofre, sem meios de subsistência, sem ocupação, sem esperança. A austeridade é indispensável, perante uma situação em que hábitos gastadores, suportados por dívida galopante, não podiam ser mantidos. Apesar disso, muitos a rejeitam, elaborando explicações que os isentam de responsabilidade, procurando culpados e vivendo na ilusão. Assim, ao sofrimento económico junta-se a raiva, o insulto, a fúria, a agressão. Crescem os extremismos e os maiores disparates passam por sabedoria num povo desesperado.
O problema não é só português. O nosso caso é manifestação de uma questão muito mais vasta que assola todo o mundo. A recente evolução, com mudanças nas tecnologias da comunicação e abertura à globalização, eliminou muitos empregos tradicionais. Telefonistas, dactilógrafos, amanuenses, arquivistas e tantos outros deixaram de ser precisos, enquanto várias ocupações de baixa tecnologia emigravam para Sul ou Oriente. Muitos na Europa e na América do Norte encontram-se em dificuldades para achar ocupação compatível. Entretanto os salários não especializados descem pela concorrência das economias emergentes e, como os talentos de qualidade estão a prémio, existe uma forte tensão de desigualdade.
Alguns até dizem que foi esta dinâmica que originou a recente crise financeira. Perante a perturbação política gerada pela disparidade, o Governo americano fomentou o crédito à habitação enquanto os orçamentos públicos europeus se desequilibravam com apoios e subsídios. Em ambos os casos, a dívida acumulada, nos bancos ou no sector público, rebentou inevitavelmente.
Entretanto nos países pobres as pressões são diferentes mas igualmente difíceis. Entre as economias emergentes existe forte melhoria de bem-estar, mas começam a denunciar-se situações de exploração, abuso e violação de direitos, semelhantes às da revolução industrial. Entretanto, nas zonas mais pobres, a estagnação torna-se mais intolerável quando os vizinhos começam a crescer.
João César das Neves
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