por EURICO DE BARROS
Foi com Wes Craven, no final da série de filmes Pesadelo em Elm Street, mas especialmente na série Gritos, que o cinema de terror começou a fazer pose pós-moderna, a ser auto-referencial e a criar cumplicidades com os espectadores mais tu-cá, tu-lá com o género. Craven, por exemplo, começou a pôr as personagens a raciocinar como os próprios espectadores sobre o que lhes estava a suceder, e a fazê-las reflectir não só sobre sobre a sua condição, como também sobre os estereótipos, as situações feitas e as rotinas narrativas do género. Finalmente, as personagens do cinema de terror reagiam como pessoas reais que viam filmes de terror, conheciam os seus mecanismos de funcionamento e podiam acautelar-se contra os seus perigos. Estes metafilmes de terror foram logo parodiados por Keenen Ivory Wayans na série Um Susto de Filmes, que usando humor misto de nonsense e de boçalidade, levou a auto-referencialidade do género a um novo patamar. Drew Goddard, realizador e co-argumentista de A Cabana na Floresta, e o omnipresente Joss Whedon, produtor e também argumentista, disseram que o seu filme é "uma carta de amor-ódio ao filme de terror". Pegando na Situação Narrativa Número 1 do género slasher - um grupo de jovens vai passar um fim-de-semana a uma sinistra cabana nos boques e é atacado por forças malignas -, Goddard e Whedon servem-se dessa cumplicidade hoje existente com o público aficionado que já a sabe toda (ou julga saber), para glosar, criticar, desmontar e reduzir a pó esse formato, com um extremismo tão gore como anarquizante. E fazem também do filme uma metáfora sobre o estado actual do cinema de terror, a capacidade de manipulação dos seus realizadores e argumentistas e as expectativas e o voyeurismo dos espectadores. Só que ao custo de uma história rebuscada até ao riso involuntário, e a uma sangueira digna de um talho clandestino terceiro-mundista.
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