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LEONÍDIO PAULO FERREIRA

Aprenda uma lição de vida com uma rapariga afegã

por LEONÍDIO PAULO FERREIRA  

A arma mais eficaz para esconder os belos olhos rasgados das hazaras é a burca. Mas não se pense que impondo o mais opressivo dos véus islâmicos os talibãs se davam por satisfeitos na sua sanha contra a minoria xiita afegã, bem identificável pelos traços mongóis. Contra os homens, o terror era a regra, com execuções filmadas para assustar e fazer fugir do país, onde vivem há séculos, esses descendentes das hordas de Gengis Cão. Percebe-se porque aplaudiram os hazaras a invasão americana de 2001 e o fim do regime do mullah Omar.

Hoje, metade dos alunos da Universidade de Cabul serão dessa etnia, que porém não representa mais do que 15% dos 30 milhões de afegãos. E as raparigas abundam, mas sem burcas azuis, apenas um lenço branco a cobrir os cabelos. É mais do que óbvio que os hazaras estão a aproveitar a presença das tropas estrangeiras para escapar às velhas perseguições e intrometer-se nas elites intelectuais.

Quem já viu o filme O Menino de Cabul (ou leu o livro) terá tido uma ideia do tradicional desprezo que os outros afegãos dão aos de origem mongol. Sobretudo os pastunes, a etnia maioritária, muçulmanos sunitas com rostos a recordar que na Ásia Central os persas se misturaram um dia com os soldados gregos de Alexandre.

No século XIX, houve até um rei afegão que declarou a guerra santa aos hazaras, vistos como hereges. E durante o século XX, os poucos da comunidade que se arriscavam a deixar as suas terras no centro do Afeganistão, o Hazarajat, não iam além de criados nas casas da nobreza pastune ou tajique de Cabul.

Cercados de hostilidade, os hazaras não tinham nada a perder com a mudança. Por isso muitos se deixaram seduzir pelo comunismo, outros pelo khomeinismo triunfante no vizinho Irão. Mas acabaram como grupo, a exemplo das outras etnias, a combater o regime marxista e os seus aliados soviéticos. Nas fações de mujaedines que, vitoriosas em 1992, se dedicaram a combater entre si também havia uma dos hazaras. E se alguém perdeu com a ascensão dos talibãs em 1996, foram eles. Que esperar de gente que destruiu a tiros de canhão os budas de Bamiyan para apagar a memória dos tempos pré-islâmicos? Bamiyan fica no Hazarajat e nunca as estátuas gigantes tinham incomodado.


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A cidade e o nexo*

por Brassalano Graça, licenciado em Jornalismo

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