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VASCO GRAÇA MOURA

'How do you undo?'

por VASCO GRAÇA MOURA  

O Governo anterior resolveu macaquear a Espanha e mandar fazer um estudo sobre o valor económico da língua portuguesa. Os espanhóis tinham concluído que a sua língua valia 17% do PIB e o estudo português, segundo recordo, não terá chegado a uma conclusão muito distante dessa percentagem. Mas também podia ter chegado a 3%, ou a 45%, ou a outro número qualquer. Não levava a lado nenhum. Não servia para nada.

O valor de uma língua não se pode medir assim e muito menos quantificar. Avalia-se por uma série de parâmetros mais ou menos flutuantes e que por vezes se alteram rapidamente (veja-se o que aconteceu nas últimas décadas com a perda de importância do francês à escala mundial). A avaliação não pode deixar de ser impressionista e deve ter em conta, entre outros aspectos, a dimensão do universo dos que falam essa língua, a importância que ela tem na produção cultural, literária, artística e científica, a frequência da sua utilização internacional, a sua presença no mundo da política, dos negócios e das relações humanas e sociais, e assim por diante, sem que o seu valor se possa traduzir em "economês" e muito menos numa percentagem do PIB. Até porque, se a mesma língua for comum a vários países, não se vê como determinar e quantificar com segurança o valor que, nessa perspectiva, ela tenha para cada um deles. Para dar um exemplo extremo, o valor da língua inglesa é extraordinário. Mas como traduzi-lo em percentagens do PIB de qualquer dos países que a utilizam?

Por outro lado, temos todos consciência da necessidade de defender a chamada língua materna. Quer compreendendo-a como elemento primordial da nossa identidade e da nossa relação com o mundo, quer exigindo uma correcta aprendizagem dela na escola, quer procurando que seja correctamente falada em todas as circunstâncias da vida pública e privada, quer valorizando e promovendo o património que nela se constituiu, quer defendendo a sua utilização em organizações internacionais, em especial naquelas em que ela é oficialmente reconhecida em paridade com as outras. No Parlamento Europeu, tive ocasião de protestar mais do que uma vez pelo facto de o português ter sido preterido no trabalho de comissões em que participei (cfr. as minhas Anotações Europeias, Lisboa, Bertrand, 2008, pp. 482-492).

Agora fico de boca aberta ao ler, no Público de 26.7.2012, que no Ministério das Finanças se recorre ao inglês para falar com os banqueiros nossos compatriotas. Assim mesmo. Fernando Ulrich, presidente do BPI, considerou incompreensível que o Ministério das Finanças realize reuniões em inglês com os banqueiros portugueses e observou: "Nunca me tinha acontecido tal coisa. É irritante ter de falar com o Governo do meu país em inglês."

Mas sejamos justos. I mean it, my dear Fernando Ulrich, let's be fair! O Ministério das Finanças não está sozinho nessa bizarra propensão para a anglofonia, por muito que insista em impor uma austeridade absolutamente deslocada no tocante ao uso da língua portuguesa. É que, mesmo aceitando a relevância do inglês para a I&D em certas áreas científicas, custa a engolir que os projectos de investigação que respeitem à literatura portuguesa, à cultura portuguesa ou aos estudos portugueses, devam ser apresentados em inglês à Fundação para a Ciência e Tecnologia e em inglês hajam de ser avaliados por peritos que até podem não falar português e não perceber patavina daquilo a que tais projectos respeitam. O certo é que todos os campos dos formulários das candidaturas devem ser preenchidos em língua inglesa, parecendo que o português fica reservado ao preenchimento de algumas indicações sumárias e secundárias (depois de feitas, claro, em inglês).


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