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PEDRO TADEU
Opinião

Vi a luta de classes no José Hermano Saraiva

por PEDRO TADEU  

A primeira vez que percebi a brutalidade do exercício do poder político tinha uns sete ou oito anos de idade. José Hermano Saraiva explicava, no programa O Tempo e a Alma, que D. Afonso Henriques mandou casar a filha de 15 anos, a infanta D. Urraca, com D. Fernando II, de Leão. "Era ainda uma criança, coitadinha!", sublinhava, com ar teatral, para nos emocionar com o drama da menina. E eu emocionei-me.

A primeira vez que percebi a existência das classes sociais, os interesses distintos que as perseguem, a divisão que as separa, a contradição e a luta entre elas, permanente, foi, no mesmo programa, num outro episódio, dedicado aos Painéis de São Vicente de Fora.

Neles, como todos sabem, vemos 59 figuras: da nobreza, do clero, da burguesia e do povo do século XV. Neles desenvolve-se, ainda hoje, um mistério interpretativo em cada uma daquelas caras.

Para José Hermano Saraiva, o significado profundo daquele quadro, o significado perene da sua própria intervenção televisiva, era este: a grandeza e honradez do povo português, "da gente humilde" que com o seu esforço, engenho e coragem garantiu o seu sustento e sobrevivência, mas também a independência e a liberdade de Portugal. Um povo vencedor, apesar das traições e dos desvarios que sempre atravessaram os comportamentos das classes dominantes. Estas, no entanto, deram-nos indivíduos de enorme estatura que, em inúmeras ocasiões, sobrepuseram-se à mediocridade dos seus pares e mudaram o curso da História.

Era uma narrativa de heróis, de vilões, de indivíduos. Era também a história de uma identidade coletiva: a do povo português, a "Alma", a Nação, que ele intelectualizava com compromisso ideológico.


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