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VASCO GRAÇA MOURA

Fradique num dia muito quente

por VASCO GRAÇA MOURA  

Num breve texto que escrevi há anos, "Para um retrato do Eça lá em casa", eu contava como os meus irmãos e eu tínhamos tido um primeiro contacto com muitas páginas do autor de Os Maias (e com outras de Camilo e de mais autores), ouvindo o meu pai e os meus tios dizerem passagens inteiras dos seus livros favoritos, porque as sabiam de cor e lhes dava um enorme gozo repeti-las e chamar a nossa atenção de miúdos para elas.

A mesma coisa tinha acontecido com mais gente da minha idade, como pude verificar um sem-número de vezes ao longo da vida. A geração dos nossos pais crescera no prazer de certas leituras de grandes autores, tinha uma memória intelectual e afectiva bem desenvolvida para essas obras de culto e comprazia-se em saborear as citações que ia fazendo, procurando mostrar como eram flagrantes e bem observadas, a propósito disto ou daquilo.

Uma das passagens que me acompanha desde que me conheço diz respeito a Fradique Mendes, o dândi que fora amigo de Charles Baudelaire e de quem sabemos ter começado por ser uma espécie de heterónimo a quem haviam sido atribuídos os satanistas Poemas do Macadam, da tripla autoria de Eça de Queirós, Antero do Quental e Jaime Batalha Reis. Eça em carta a Oliveira Martins, falando-lhe de um primeiro projecto da Correspondência, descrevia-o dizendo, entre outras coisas, que ele tinha amantes e discutia com elas "a metafísica da voluptuosidade".

O autor textual que apresenta a Correspondênciade Fradique Mendes diz-nos do primeiro encontro com o seu herói, contando como tinha passado a noite anterior a preparar umas frases profundas para cumprimentar o poeta insigne das Lapidárias, tendo "com amoroso cuidado burilado e repolido esta: 'A forma de V. Exa. é um mármore divino com estremecimentos humanos!'". Mas, quando o seu amigo Marcos Vidigal o apresenta a Fradique e este, por sua vez, o convida a subir aos seus aposentos e alude "ao tórrido calor de Agosto", o nosso narrador exclama "- Sim, está de escachar!" e depois não consegue mais do que dizer uma série de vulgaridades grotescas: "E debalde rebuscava desesperadamente uma outra frase sobre o calor, bem trabalhada, toda cintilante e nova! Nada! Só me acudiam sordidezas paralelas, em calão teimoso: "é de rachar!" "está de ananases!" "derrete os untos!...".

Nas tardes de muito calor, lá em casa, quantas vezes ouvi estas frases entre gargalhadas e, mais tarde, quantas vezes as repeti ou ouvi repetir a terceiros, nesse tique adquirido e partilhado de homenagem ao Eça e à sua imensa capacidade de humor e de ironia.


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