por Alberto Gonçalves
Após ler alguns comentários à minha crónica da semana passada, percebi os argumentos dos que em tempos defendiam a rectidão da licenciatura de José Sócrates e agora acham a licenciatura de Miguel Relvas um escândalo. Segundo parece, ambos os casos são (preparem-se) "incomparáveis".
E são incomparáveis porquê? Uma corrente de pensamento limita-se a dizer: porque sim, leia-se porque gostam do "eng." Sócrates e não gostam do "dr." Relvas, ou porque gostam do PS e não gostam do PSD, ou, no fundo, apenas porque sim. Uma segunda corrente, mais sofisticada, elabora um bocadinho e explica que o "eng." Sócrates concluiu a maior parte das disciplinas do seu curso, enquanto o "dr." Relvas não terá concluído quase nenhuma.
Assim apresentada, a tese faz certo sentido, sobretudo se, a título de exemplo e a pretexto de galhofa, lhe acrescentarmos as equivalências académicas que o "dr." Relvas obteve após dirigir uma agremiação folclórica (na acepção literal: não se trata do PSD) e se, para evitar complicações, lhe subtrairmos o facto de que, ao que corre por aí, uma determinada quantidade das disciplinas que o "eng." Sócrates tão brilhantemente realizou não existirem à data da passagem dele por elas.
Mas se não formos fanáticos das luminárias citadas e não ganharmos em fugir da questão, a questão é: há favorecimentos aceitáveis e favorecimentos inaceitáveis? Ou: duas trapaças com objectivos idênticos devem suscitar juízos de valor distintos? Ou ainda: em que medida é que um mentiroso num cargo de poder é preferível a outro mentiroso num cargo de poder?
Dito isto, e tal como o caso Relvas não legitima o "eng." Sócrates, o caso Sócrates não serve para desculpar o "dr." Relvas. É evidente que metade das poucas-vergonhas com que semanalmente o "dr." Relvas nos brinda bastaria para que pedisse a demissão. É evidente que a lealdade do primeiro-ministro ao homem que lhe entregou o cargo condena o Governo ao ridículo e ao descrédito. É evidente que um Governo reduzido a tema de anedotas constitui a última coisa de que um país falido e dependente carece. É evidente que os portugueses dispensam a sede de conhecimento do "dr." Relvas, visto que, até pelos precedentes do género, já o conhecem de sobra.
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