por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
O mais parecido que existe com uma vítima do pessimismo é uma vítima do otimismo. Em ambos os casos, troca-se a realidade pela sua representação falseada. Num caso pelo receio. No outro pela inflação de expetativas positivas. Para todos os que exultaram (e com razão) ao ver que, pela primeira vez numa Cimeira da Zona Euro, não foi a chanceler Merkel a dar todas as cartas, é conveniente um pouco de prudência na análise dos resultados. Foi bom ter visto Monti e Rajoy recordarem a Berlim que Roma e Madrid, juntas, têm um PIB maior do que o da Alemanha, e que, quando não há valores nem regras - como é o caso na atual deriva europeia -, é preciso respeitar a força nua. Mas agora é tempo de meditar no que as conclusões da Cimeira trazem, efetivamente, para o desenho do futuro. Nos quatro lacónicos parágrafos das conclusões, a expressão mais repetida (três vezes) é a de "Memorando de Entendimento". Isso significa que não há almoços grátis, nem para italianos nem para espanhóis. No caso da banca, o comunicado faz depender o financiamento direto por parte do MEE da conclusão do processo de constituição de um mecanismo europeu de supervisão bancária, no âmbito do BCE (o que não acontecerá antes de 2013). Mais, mesmo que o capital emprestado aos bancos não aumente a dívida pública, a verdade é que o Estado ficará responsável por ela, pois a condicionalidade imposta pode estender-se ao "conjunto da economia". Para italianos e espanhóis, a possibilidade de os fundos europeus (FEEF e MEE) atuarem no mercado das obrigações, para além de ser algo que já estava previsto desde o final de 2011, não resolve a exiguidade dos meios financeiros, assim como a pouca vontade de o BCE voltar a atuar energicamente no mercado da dívida. Se as medidas de curto prazo se perfilam num manto de neblina, as de longo prazo nem sequer se vislumbram. Nem uma palavra sobre euro-obrigações. Nada também sobre o roteiro para uma União política. Chegada de Bruxelas, Merkel teve de enfrentar um Bundestag impaciente. Sossegou-o, reafirmando que o rumo estratégico de Berlim se mantém. Tudo indica que, assente a poeira, a crise continua em regime agónico.
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