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JOÃO CÉSAR DAS NEVES

Mentalidade pública

por JOÃO CÉSAR DAS NEVES  

Hoje existem várias crises simultâneas e nem sempre as piores são as mais patentes. Temos uma crise financeira. Isso todos sabem. A dívida é alta e há que a pagar. Mais grave é a crise económica. Anos de dinheiro fácil distorceram mecanismos e promoveram actividades espúrias e perdulárias. A correcção desses desvios, que gera o enorme desemprego, vai ser longa e pior que a da dívida.

Estas duas crises são visíveis, motivam a atenção de todos e as políticas do governo e troika. Mais importantes, mas menos debatidas, são as mudanças em comportamentos e regras, abandonando vícios que o longo período de esbanjamento promoveu. A crise de fundo é cultural.

Nesse campo existem duas tarefas, uma acessível, outra penosa. É urgente os portugueses mudarem de hábitos, corrigindo muitos desperdícios e exageros involuntários que os tempos de facilidade suscitaram. Mesmo que a prosperidade regresse, é preciso nunca voltar ao esbanjamento conspícuo dos últimos anos. Além disso, perante a grave recessão, é mesmo urgente cortar coisas importantes. Esta é a famigerada "mudança de mentalidades" que tantos analistas recomendam. Mas tal adaptação, mesmo dolorosa, é fácil de conseguir.

As pessoas reagem a incentivos. Este princípio básico da economia tem como corolário que é rápido transformar os hábitos de um povo quando as circunstâncias mudam. Todos os que se acostumaram a despesas exageradas quando o vento soprava a favor, corrigem logo os orçamentos face às dificuldades. Não há dúvida acerca das terríveis dores que alguma dessa adaptação implica. Mas não é preciso andar a sugerir mudança de mentalidades, porque ela acontece logo e naturalmente.

O que é muito mais difícil de mudar são as mentalidades públicas, rigidamente consagradas em leis, regras e imposições. Os anos de decadência não afectaram apenas os cidadãos. Aliás o seu maior impacto foi nos hábitos do Estado, que se acostumou a manias sumptuárias, exigências mesquinhas, requintes exagerados. Sempre em nome de propósitos meritórios, criaram-se regulamentos minuciosos, quesitos mirabolantes, inspecções obsessivas. Pior, devido à obsessão regulamentar dos tempos modernos, em que tudo tem de ser estatuído legalmente, essa rigidez é tão omnipresente que pode ser fatal. Boa parte dessas obrigações vinha dos países ricos que queríamos imitar, e uma grande fatia até era imposta por directivas comunitárias. Se uma burocracia nacional pode ser imbecil, uma burocracia supra-nacional é super-imbecil.


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