por ALBERTO GONÇALVES
Por estes dias, estreou-se em Telavive um espectáculo de dança inspirado pelo Diário e pela vida de Anne Frank. O facto, aparentemente trivial, torna-se notícia quando se sabe que o espectáculo começou por ser concebido na Venezuela para exibição local e foi proibido por ordem de Hugo Chávez, que "sugeriu" aos coreógrafos a troca do tema pelo do "sofrimento palestiniano". Perante a recusa, as autoridades revolucionárias lá do sítio fecharam a companhia, que acabou por se transferir para Israel.
Não é a primeira vez que o régulo de Caracas exibe o seu anti-semitismo. Em frequentes ocasiões, a criatura teve oportunidade de perorar sobre a "ameaça" do "judaísmo internacional" e da comunidade judaica local, cuja antiguidade e cujo papel no apoio a Bolívar não a livraram da inédita perseguição de que vem sendo alvo desde o feliz advento do "chavismo". Entretanto, um país relativamente omisso nessas tendências já assistiu à profanação de sinagogas, à disseminação de graffiti com palavras de ordem comuns na Alemanha de 1933, a ataques de forças policiais a escolas e clubes hebraicos, à proliferação da retórica do ódio na imprensa e nas televisões do regime, à distribuição oficiosa de edições dos Protocolos dos Sábios do Sião, à formação de uma filial latina do Hezbollah e, claro, às diatribes do próprio Chávez contra "aqueles que crucificaram Cristo".
Se os media costumam deixar claríssima a relação entre o ódio aos judeus e a extrema-direita, são pouco propensos a mostrar idêntica disposição na extrema-esquerda. No entanto, a disposição existe desde Marx, o típico self-hating jew que, se evidentemente não a criou, consagrou a identificação do judaísmo com o capitalismo, de que só o movimento comunista - como antes Cristo, mais um judeu desavindo face à tribo - nos poderia resgatar. Decidido a tornar-se uma fé no lugar da fé, e apesar da significativa presença judaica na sua génese, o marxismo cuidou de preservar o inimigo comum. E os marxistas preservam a herança.
Chávez é apenas um exemplo célebre e historicamente recorrente desta peculiar forma de anti-semitismo. Inúmeros exemplos obscuros encontram-se, por exemplo e para não sairmos da actualidade, na inequívoca alegria com que a esquerda internacional recebeu a chamada Primavera Árabe. Para consumo dos simples, é de bom-tom afirmar que os revoltosos da Praça Tahrir e similares derrubaram uma ordem ditatorial. O que não convém dizer é que sempre a quiseram substituir por outra menos simpática para com o Ocidente, a América e, sobretudo, Israel, e que é isso o que se celebra.
Não importa que, em quase tudo, os sublevados do Norte de África pratiquem o inverso do que os comunistas do lado de cá em teoria defendem: importa a aversão que ambos alimentam pelo materialismo libertino e progressista que define a nossa civilização, e que os judeus justa ou injustamente personificam. Fogueira com eles? Fogueira connosco. Afinal, não devia ser novidade que a mítica libertação de todos os povos implica a opressão de, no mínimo, um deles. E que os assassinos de Anne Frank possuem hoje curiosos aliados.
ADN TUGA
Adorei a análise incisiva e correcta ...
há 322 dias, 22 horas e 53 minutos
Ibn Harrik
Oh Bétinho, só tu ainda não tinhas ...
há 323 dias e 24 minutos
Fernando Serra
Ex.mo Senhor colunista Alberto ...
há 323 dias, 18 horas e 50 minutos
O GADANHA
Essa de a esquerda apoiar a "primavera ...
há 323 dias, 20 horas e 43 minutos
Beirão
Tiro o chapéu a este cronista ...
há 323 dias, 20 horas e 56 minutos
por Carlos A. da Rosa Leal, Lisboa
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Utilizador Registado Utilizador Não Registado
Primitivos com causa
As questões ditas "fracturantes" não me incomodam nada. Incómodas são as criaturas que fazem disso uma forma de vida. Será que não conseguem discutir um assunto sem tentar reduzir os adversários a neandertais...
ALBERTO GONÇALVES
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