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JOÃO LOPES
Entre as imagens

A televisão do futebol e dos berros

por JOÃO LOPES  

Um dos mais belos interditos do cinema clássico estipula a impossibilidade de cruzamento dos olhares de personagens e espectadores. Em termos simples: o ator não deve olhar para a câmara. É uma interdição ambígua que um mestre como Alfred Hitchcock foi pervertendo através dos seus enigmáticos planos subjetivos: recordemos o divertimento trágico que é Janela Indiscreta (1954) ou ainda a assombrada teia de olhares do inquietante Psico (1960). Mais tarde, cineastas como Ingmar Bergman ou Jean-Luc Godard transformaram tudo isso numa arte de desafiar as certezas de todos os olhares. Recorde-se o exemplo do genial Persona (1966), em que Bergman filma Bibi Andersson e Liv Ullmann como reflexo uma da outra, num jogo de espelhos que não pode deixar de implicar o espectador.

Nos tempos que correm, o conceito dominante de televisão tem-se encarregado de destruir essa admirável disponibilidade para discutir as imagens do mundo, seus mistérios, ambivalências e silêncios. Como? De forma metódica e quotidiana, marginalizando o cinema. Mas também promovendo o voyeurismo grosseiro de apanhados e reality shows em todas as suas frentes de expressão, incluindo a informação.

Recentemente, em particular através de algumas reportagens (portuguesas, espanholas, etc.) do Euro 2012, deparámos com a consagração de um novo tipo de figurante televisivo. É o cidadão feliz com a sua própria decomposição humana: assim que vê uma câmara de televisão, desata aos pulos e aos gritos. Normalmente, surge em grupos mais ou menos caóticos, mas o comportamento é sempre idêntico: berrar para a câmara parece confundir-se com a proclamação de uma identidade de deprimente (e deprimida) nostalgia infantil. Quando um repórter dirige alguma pergunta a um desses cidadãos, a resposta é quase sempre uma expressão rude, a tender para a utopia do monossílabo: "Aaargh!", "Vitória!", "Portugal!" Percebemos também que as televisões tomam a sério esta pornografia mediática do disparate, uma vez que, não poucas vezes, há quem nos diga coisas como: "Fomos auscultar as reações dos portugueses..."

Esperar que, um dia destes, possamos encontrar Bergman em horário nobre é um pouco como acreditar que um especulador de madeira de eucalipto possa vir a fundar uma associação de proteção do pinhal de Leiria... Em todo o caso, vale a pena dizer que este estado de coisas reflete uma militante deseducação das imagens (e para as imagens). No fundo, reduz-se o olhar de uma câmara à procura do pitoresco mais ou menos grosseiro, ao mesmo tempo que se proclama o cidadão como protagonista obrigatório do assassinato da sua própria inteligência.

Formular a possibilidade de desligar a câmara seria um primeiro passo simbólico para (re)discutirmos a responsabilidade inerente à produção de qualquer imagem. Infelizmente, esse é um drama moral que só ao cinema parece interessar.


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