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ANDRÉ MACEDO

Nem que a vaca tussa

por ANDRÉ MACEDO  

Já são 39% os alemães que desejam abandonar o euro, 28% os italianos, 26% os franceses e 24% os espanhóis. Esta sondagem, citada pelo Corriere della Sera, não se maçou em ouvir portugueses, gregos e irlandeses. Para quê ouvi-los, já estão de joelhos e não contam um caracol, não é? Estão de mão estendida. Até os gregos, os mais imprevisíveis deste trio de falidos, baixaram a bolinha nas últimas eleições. Nem no futebol foram longe. Ganhou a poderosa e irritante Merkel.

Ela irrita, sim, mas hoje e amanhã vamos ter de a aturar. Não há alternativa. O Conselho Europeu (mais um) promete novidades, soluções, novos planos da pólvora e uma (mais uma) pomadinha especial para aliviar as cruzes da Zona Euro. Como sempre, a agonia repete-se. Os líderes seguem para a reunião inchados de boa vontade: é desta, agora é que é. No fim, um enorme flop, aliás fácil de antecipar. Mario Monti, o velho tecnocrata italiano, exibiu ontem o habitual coração de ouro transalpino. Que se lixem portugueses, gregos e irlandeses. O que importa é que Itália e Espanha consigam que o fundo europeu de estabilidade possa comprar dívida destes dois honrados países sempre que for preciso - ou seja, quando os juros começarem a subir. Troika? Austeridade? Isso é para os pobres, os ultraperiféricos, não para a terceira e quarta potências (?) da moeda única.

E o que pensa disto François Hollande? Não pensa, deseja ardentemente. Deseja as famosas eurobonds como quem pede uma imperial e uns tremoços só para início de conversa. Venha lá a mutualização da dívida e logo se vê, diz ele. É um mãos-largas este francês. Hollande devia entender uma coisa: as eurobonds serão - a serem, um dia, qualquer coisa - o fim do processo, não o início. União bancária, integração orçamental (ou seja, partilha efetiva de soberania) e, finalmente, eurobonds. A ordem é esta, não outra. Não porque a Alemanha o exija, embora seja esse o caso, mas porque é o que faz sentido. Só assim a distribuição do risco é aceitável, não um suicídio coletivo. Uma espécie de morte a crédito. Até lá, portanto, há assuntos concretos a discutir. Vamos ter um ministro das Finanças europeu? Como? Quando?

É uma pena que a maioria dos deputados não entenda que o problema não está nesta figura (aliás, inevitável; eu diria até: bem-vinda) mas nos mecanismos de eleição e controlo deste governo supranacional. Numa altura como esta, em que o sentimento anti-UE aumenta, o processo de aprofundamento tem de ser visível, não pode ser clandestino. Não pode ser de cima (Alemanha) para baixo: tem de ser pensado e defendido em conjunto. Não se trata apenas de garantir o controlo centralizado das finanças públicas, mas também de assegurar as transferências Norte--Sul de riqueza que permitam a construção de uma Europa mais equilibrada. Se não for assim, então 39% dos alemães têm razão: o euro deve acabar. Nem que a vaca tussa ou que alguém, digamos, faleça pelo caminho.


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