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MANUEL MARIA CARRILHO
a boa distância

Um euro esconde o outro

por MANUEL MARIA CARRILHO  

Se não diz tudo, o futebol diz todavia muito sobre a época que vivemos, nomeadamente sobre o que nela mais persistimos em ignorar. Sobretudo agora que, com a crise que atravessamos, ele faz do euro desportivo uma verdadeira catarse quotidiana do outro euro, monetário, económico e político. O intermitante júbilo que envolve um serve para tentar esconjurar a fatigante depressão que se colou ao outro. Depressão que hoje e amanhã o Conselho Europeu, reunido em Bruxelas, vai - em mais uma "cimeira decisiva" -, garantir que tudo fará para conseguir ultrapassar.

Nestes momentos de intensa futebolização do quotidiano, é indispensável sublinhar algumas ideias, que para mim há muito sintetizam o homo sportivus do nosso tempo. A primeira é que o desporto, e nomeadamente o futebol, se tornou num fenómeno global de índole quase religiosa, que se impõe a todos os povos, os sexos e as idades. Prova disto é o seu domínio do tempo: hoje em dia o calendário desportivo fixa uma liturgia que condiciona quase todas as outras temporalidades, sejam elas sociais, políticas ou escolares

A segunda ideia é que o desporto, ao mesmo tempo que minou os valores a que tradicionalmente se associava (o espírito lúdico, a camaradagem, a valorização pessoal, o respeito pelo adversário, a abnegação, etc.), passou a consagrar um único valor: a performance. Valor que traz consigo uma devastadora lógica mercantilista, de que todos os dias temos múltiplos exemplos, que excedem a mais fértil das imaginações.

Foi assim que o desporto, concebido como um singular contacto entre povos diversos, histórias autónomas, pessoas diferentes, tradições específicas ou valores contrastantes, praticamente desapareceu. E desapareceu justamente devido à sua consagração como prática massificadora, que o tornou cada vez mais inseparável do culto da cupidez, do dinheiro fácil, do sucesso que não olha a meios, da matriz de irresponsabilidade impune, fatores que têm conduzido as nossas sociedades aos tremendos problemas que hoje vivemos.

Seria pois bom que - como já uma vez escrevi - se pensasse a sério "na sociedade que se está a construir, quando os exemplos que se incensam até ao delírio são os de indivíduos que vivem numa abracadabrante ostentação, como se fossem deuses de um novo circo, gastando dezenas de milhares de euros numa noite de discoteca, exibindo um permanente carrossel de "scort girls" de luxo, circulando em automóveis de centenas de milhares de euros que estoiram sem um ai. Ao mesmo tempo que, na maior parte dos casos, raramente são capazes de uma iniciativa filantrópica, de um projeto mecenático, de um gesto solidário. Ou, mesmo, quantas vezes, de uma simples frase com sentido..."


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