Publicidade
Diário de Notícias Diário de Notícias


OSCAR MASCARENHAS
Provedor do leitor

O caso da estranha notícia, com fonte policial e tudo, de facto ainda por ocorrer

por OSCAR MASCARENHAS  

A surpresa e indignação do leitor eram patentes: "Venho por este meio questionar a credibilidade e transparência do DN, que na sua edição de 19 de junho, no Porto, dava conta da desocupação da Biblioteca do Marquês pela Polícia Municipal do Porto, antes mesmo de esta ter acontecido. Este jornal, já pela manhã cedo, aquando da sua saída para as ruas, dava conta de um acontecimento antes mesmo este ter acontecido, já que a referida desocupação apenas se deu por volta das 10 horas da manhã."

Acrescenta o leitor que "pior ainda é a mesma notícia referir detenções (três, segundo consta nesta ficção disfarçada de notícia) e confrontos com a polícia, quando nenhum destes aconteceu, como aliás pode ser confirmado junto das autoridades envolvidas no despejo. Esta notícia imputa ainda, aos ocupantes da Biblioteca, ligações ao movimento da Es.Col.A da Fontinha, sem que estas se confirmem ou sejam sequer verdade."

O leitor comenta, naturalmente: "Parecem-me gravíssimas situações deste género, que apenas servem para aumentar a especulação e desconfiança baseados na ignorância, e que põem a nu as verdadeiras intenções de publicações como esta, inventar notícias com o apoio dos poderes locais manipulando a opinião pública para bem da confusão geral."

Mais dois leitores fizeram chegar os seus protestos, transcrevendo o que já inundava blogues e redes sociais, com os comentários e ilações políticas previsíveis relativamente a esta situação estranhíssima.

A notícia, de uma coluna e um só parágrafo, surgiu ao fundo da página 17 da edição em papel de dia 19, com o título: "Porto. PSP despeja 'ocupas' de biblioteca." Nas redes sociais, a notícia vinha polvilhada de anotações à margem, algumas das quais coloco entre parênteses retos e itálico, para "diálogo" imediato:

"A PSP [leia-se 'Polícia Municipal à paisana'] despejou ontem [dia 18, então?] o movimento Es.Col.A [diz quem?], que tinha ocupado a antiga Biblioteca Popular Infantil, no jardim do Marquês do Pombal, no Porto, no passado dia 16. Segundo a polícia, a ação decorreu sem qualquer incidente, contudo três [?] pessoas foram identificadas [sublinhado] por 'injúrias e agressões' ['não aconteceu mas poderia ter acontecido?'] a agentes. O movimento que foi forçado a abandonar a antiga escola primária da Fontinha instalou-se na biblioteca infantil, onde pretendia realizar obras e colocar material escolar para dar apoio às crianças desta zona da cidade. A biblioteca foi criada em 1948, mas há anos que está desativada [desde 2001]. Após serem identificados os ocupas permaneceram no local."

Tendo pedido esclarecimentos à Direção do DN, fiquei a saber da preocupação que se apossou dos responsáveis do jornal por este insólito caso: "A direção deste jornal foi apanhada de surpresa por esta situação. O caso será analisado com profundidade em próxima reunião de direção."

Simultaneamente, foi-me enviada a explicação dada pelo redator da notícia: "O DN, na sua edição de 19 de junho, publicou na página 17 uma notícia com o título 'PSP despeja ocupas de biblioteca'. Na realidade, o despejo só foi realizado, pela Polícia Municipal do Porto, no dia da publicação.

"O texto foi realizado com base numa notícia que uma estação de televisão tinha na sua página na Internet e que acreditei ser verdadeira. Algumas informações, como o facto de as instalações da antiga biblioteca do jardim Marquês de Pombal, no Porto, estarem ocupadas pelo movimento Es.Col.A são verdadeiras. Socorri-me também do site da Biblioteca Popular do Marquês, onde a dada altura surge a seguinte informação: 'Parece que a biblioteca recebeu hoje a visita da polícia, que esteve a fotografar (incluindo os artigos que foram afixados) e levaram de recordação um dos manifestos. Quem puder vir mais cedo hoje, às 17h30 ou assim, era conveniente, para percebermos o que se passou e para que estejamos lá caso eles decidam voltar outra vez para fazer turismo. Até já.'"

"A própria Polícia Municipal garante que, de facto, na segunda-feira, dia 18, alguns agentes estiveram no local. Ou seja, houve, efetivamente, uma ação policial, mas não com os contornos que descrevi."

"Tinha o dever de mencionar a fonte da notícia e, acima de tudo, tinha a obrigação de confirmar os factos. E nem sequer posso invocar que se trata apenas de uma pequeníssima notícia, porque as regras básicas do jornalismo são para aplicar sempre. Independentemente do tamanho da prosa."

Na sua explicação escrita, o redator não identificava o site da estação de televisão que teria sido a sua fonte. Contactado telefonicamente, referiu-me a TVI24, que, entretanto, segundo julga, terá substituído, no dia 19, a notícia por uma versão correta, ilustrada com a mesma foto que o redator se recorda de ter visto na véspera.

Há aqui a dar algum benefício da dúvida: se o redator se me lamentou não ter tido a diligência de confirmar a notícia com a polícia, alguma outra fonte haveria de ter, a não ser que tivesse sido subitamente acometido por um acesso de febre divinatória que lhe dissesse, de uma forma nebulosa e imprecisa, o que iria acontecer no dia seguinte. Isto não significa que a notícia da TVI 24, a ter existido, dissesse exatamente o que o DN publicou: há sempre a possibilidade de o redator deste jornal ter-se equivocado sobre o que leu.

O redator insiste em que existem ligações entre os "ocupas" da Biblioteca Popular e o movimento Es.Col.A, da Fontinha, também no Porto. Sustenta-se, segundo me disse, no que leu no blogue da Biblioteca Popular, mas confesso que não consegui encontrar lá nada nesse sentido.

Quanto às referências a situações ocorridas no dia 18 e relatadas no referido blogue - e que terão levado o redator do DN a convencer-se da veracidade da informação de que julgou estar na posse, registo anacronismos que se estendem por todo este caso. Provavelmente, o servidor do blogue da Biblioteca Popular do Marquês tem o relógio atrasado ou adiantado, porque a informação que é acima citada pelo redator, falando de uma "visita da polícia", está datada das 8 e 42 de 18 de junho, quando tal visita terá ocorrido "ao princípio da tarde". E uma segunda informação, que fala da reunião que os ativistas tiveram ao fim dessa tarde do dia 18 é datada das... 13 e 55.

Oque o DN fez foi lamentável - e não há quem não o reconheça, a começar pelo autor da notícia. E tudo aconteceu por não se ter cumprido a disciplina de verificação e, especialmente, o preceito da transparência das fontes.

Em regra, um jornalista não pode assegurar que um determinado acontecimento tenha ocorrido nos exatos termos em que o está a contar. O jornalista não assistiu ao acontecimento, apenas cruzou fontes que lhe permitiram deduzir com razoável certeza que aconteceu. Mas existe sempre a probabilidade de as fontes estarem equivocadas ou de quererem enganar. Por isso, o jornalista que reporta não garante a verdade dos factos, mas assegura, em absoluto, a verdade dos testemunhos. Como se dissesse: "Não posso garantir que aquilo aconteceu tal como informei, mas posso assegurar, jurado e cruzado, que Fulano, Beltrano e Sicrano me disseram que aconteceu."

O jornalista fica defendido, porque interpõe as fontes entre ele e a responsabilidade. Mas isso só é válido para as fontes corretamente identificadas. Se o jornalista não identifica as suas fontes, assume ele próprio a obrigação de fazer a prova do que publicou, não pode transferir essa responsabilidade para ninguém. (Daí que alguns jornalistas, que se julgam muito sabidos usando a torto e direito "fontes confidenciais", quando chamados à responsabilidade, descobrem-se na situação protagonizada pelos dois maluquinhos que estavam a pintar uma parede. Diz um ao outro: "Olha, agora agarra-te aí ao pincel, que eu estou a precisar do escadote...")

O redator da notícia sobre a Biblioteca Popular do Marquês anda agora a pôr unguento nas costas depois de experimentar os efeitos de se ter agarrado ao pincel...

Na versão que vem publicada no DN, ficava-se com a ideia de que a fonte do jornalista era a polícia. Os jornalistas têm a obrigação deontológica de, antes de publicarem alguma coisa que as suas fontes digam, averiguar das condições de liberdade, serenidade e responsabilidade dessas mesmas fontes. Quando se trata de declarações de autoridades, é usual partir-se do princípio de que elas são proferidas por pessoas livres, serenas e responsáveis e que podem ser citadas. Ora, no caso desta notícia, se tal informação tivesse sido proveniente de uma autoridade policial, estaríamos perante um gravíssimo caso de conspiração policial com fins obscuros que teriam de ser deslindados em instâncias políticas (neste caso, camarárias) e quiçá judiciais.

Mas o redator do DN nem pode afirmar que alguma fonte policial disse qualquer coisa sobre o assunto, porque não foi a ele que o disse (se disse). O redator cavalgou uma notícia onde eventualmente se terá falado em fonte policial, também sem identificação clara, a ponto de se confundir PSP com Polícia Municipal. Tudo isto por causa do péssimo hábito dos jornalistas de não dizerem quem, em concreto, foi a fonte autorizada: o comissário Fulano de Tal disse, o assessor Beltrano informou.

Houve conspiração ou tão-somente confusão de narizes? Não consigo responder. Mas o DN cobriu-se de vergonha com aquela notícia de apenas 101 palavras. A Direção do jornal promete aprofundar o assunto. Não estou a pensar na vertente disciplinar, mas na jornalística. Ferido na asa, o DN tem de dar tudo por tudo na investigação para saber, ao certo, se apenas foi uma trapalhada noticiosa ou se existiram outras coisas que levaram a esta situação.

Artigo Parcial

Patrocínio
 
15895Visualizações
28Impressões
0Comentários
4Envios
Ferramentas

Enviar por EmailEnviar por EmailPartilharPartilhar
ImprimirImprimir
Aumentar TextoAumentar TextoDiminuir TextoDiminuir Texto

FERRAMENTAS
 
  • Enviar por EmailEnviar
  • PartilharPartilhar
  • ImprimirImprimir
  • Comentar este ArtigoComentar este Artigo
  • Aumentar TextoAumentar Texto
  • Diminuir TextoDiminuir Texto
 
PARTILHAR NOTíCIA
 
VIRIATO SOROMENHO MARQUES

Churchill, no seu famoso discurso europeísta de Zurique, em 1946, disse que "se [a unidade europeia] for bem construída ela tornará a força material de um só Estado menos importante". A realidade ficou...

FERNANDA CÂNCIO

Lembro-me muito bem do meu primeiro piropo de rua. Lembro-me do sítio, do tom de voz, do olhar. Tinha uns 12 anos, vinha do liceu e um homem com idade para ser meu avô disse, quase ao meu ouvido: "Lambia-te...

PAULO PEREIRA DE ALMEIDA

A OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico - só pode ser uma ironia no que concerne aos seus propósitos e à sua "boa vontade" em relação aos países onde intervém. Na verdade, a...

LEONÍDIO PAULO FERREIRA

Kissinger, o papa da geopolítica, costuma diferenciar os americanos dos russos dizendo que uns preferem póquer, os outros xadrez. Quando se olha para Putin percebe-se que a tirada é mais do que uma metáfora...

FERREIRA FERNANDES

Confusão!, queixavam-se os jornais online. Referiam-se ao discurso inicial de Passos Coelho, ontem no Parlamento, sobre a reposição dos salários da função pública - que seria integral em 2016, disse ele...


A cidade e o nexo*

por Brassalano Graça, licenciado em Jornalismo

O DN está aberto à participação dos leitores. Use o email jornalismodecidadao@dn.pt para publicar online os seus artigos, fotos ou videos. Publique os seus SMS usando o número 96 100 200

Ver mais


Ver Mais




PUB

Especiais

Recuar
Avançar
BT Edições Multimédia
Epaper
Ocasião/Zaask - Destaque 300x100 DN



PUBLICIDADE

sondagem

Inquérito DN

Pensa que Jorge Jesus devia entrar na lista para o prémio de Melhor Treinador do Mundo?

Sim
Não
Votar  Ver Resultados



DN

Epaper

Epaper