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ANTÓNIO TADEIA
EURO 2012

O brilhantismo e a esquizofrenia são holandeses

por ANTÓNIO TADEIA  

Quando se fala na Holanda, fala-se muitas vezes em liberdades individuais. A seleção holandesa é um reflexo disso mesmo. Amesterdão e as suas coffee shops, onde se vendem e utilizam drogas leves, mas também os bairros vermelhos de cada cidade do país, com prostitutas legalizadas em exposição nas montras, são uma imagem da forma como o holandês encara a liberdade de cada um viver a vida como mais lhe apraz. No futebol, a seleção não podia comportar-se de outra forma. Regra geral, as equipas holandesas são pouco dadas à disciplina tática, como se viu na derrota com a Alemanha, por exemplo, em que De Jong e Van Bommel não anulavam as movimentações dos opositores diretos, abrindo caminho à exibição de Schweinsteiger, imperial no modo como serviu Gómez para os dois golos.

Quando se fala da Holanda, pode ainda falar-se da febre das tulipas, a primeira bolha especulativa que afetou a economia mundial, fruto da apetência dos holandeses pela beleza, pela fruição do que é belo. A seleção holandesa é um reflexo disso mesmo. Tal como no século XVII começaram a comprar títulos que depois podiam trocar por tulipas ainda por plantar, levando à especulação e à subida destes títulos para preços muito superiores ao que um artesão ganhava num ano, o gosto dos jogadores holandeses pelo belo também leva a que a equipa especule demasiado com a bola. Sneijder, Robben ou Van Persie dominam o passe, mas muitas vezes preferem o drible, a jogada mais impressionante. Quando resulta, é extraordinário. Mas, além de poder arruinar uma equipa, que deve ser sempre mais prática, essa vontade inabalável de brilhar para a bancada pode levar a um confronto de egos entre as maiores vedetas. Ainda por cima potenciado pelas liberdades individuais, que não os inibem -pelo contrário - de dizerem sempre o que pensam.

Quando se fala da Holanda, fala-se ainda muitas vezes de Vincent Van Gogh, do seu brilhantismo, mas também da esquizofrenia e do bipolarismo de que padecia e que o terão levado ao suicídio. A seleção holandesa é um reflexo disso mesmo. E nem é preciso lembrar a mais brilhante de todas, a Laranja Mecânica de Cruijff, Neeskens, Krol ou Resenbrink, para muitos a melhor equipa de futebol da história, mas que não ganhou nada. Nela viam-se manifestações de todos os sintomas descritos. Valorizava a liberdade e por isso mesmo inventou o futebol total, com trocas posicionais constantes; era uma equipa obcecada pelo belo, que se orgulha de ter chegado ao golo na final do Mundial de 1974 antes mesmo de o adversário (a rigorosa e disciplinada Alemanha) ter tocado na bola. Mas era uma equipa onde os egos valiam mais que a soma das partes e por isso mesmo se "suicidou" antes de jogar o Mundial de 1978, com o abandono de Cruijff.

É por todas estas razões que, sendo a Holanda uma das equipas mais cotadas dos últimos 40 anos no futebol mundial, só venceu Portugal uma vez em dez confrontos. Desde a estreia, em 1990, quando os holandeses ainda festejavam o título europeu de 1988 e perderam nas Antas com um Portugal quase anónimo, até às eliminações no Europeu de 2004 e no Mundial de 2006, com passagem pelo afastamento da fase final do Mundial de 2002, a última grande competição onde a seleção laranja não marcou presença. Pode a história repetir-se? Claro. Mas, suceda o que suceder, os holandeses sairão de campo com a ideia de que são a melhor equipa do grupo.


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