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VASCO GRAÇA MOURA

Nota para o dia de Camões

por VASCO GRAÇA MOURA  

Fala-se no dia de Camões, mas nessa data ninguém costuma preocupar-se excessivamente com a importância e o sentido, quer da lírica, quer da épica camoniana. Mesmo sem uma retórica exacerbada e patriotinheira, à moda do triunfalismo de antigamente, só lucraríamos com o humilde reconhecimento de que as dimensões identitárias e culturais de uma figura e de uma obra como a dele mereciam celebração mais adequada e iniciativas que propusessem um trato mais continuado e mais esclarecido com ele e com os seus contemporâneos. Isto nos levaria logo aos programas escolares e às questões do ensino da literatura e da história na escola, com todo o cortejo de considerações que se justificam. E levar-nos-ia também a questões existenciais mais profundas, tocando um sentido da cidadania mais substantivo e mais preocupado em lermos Camões também à luz do que hoje somos, e em sermos "lidos por ele" na mesmíssima medida.

É claro que o contacto com a obra do épico, hoje, não vai sem dificuldades, para além das que respeitam à complexidade do texto, à sua interpretação, à sua sintaxe, ao seu léxico, à sua inserção no quadro da mentalidade nacional e no próprio tecido cultural europeu, quer na diacronia, quer na sincronia. Camões entretanto deixou de ser lido a sério, funcionando cada vez mais como repositório de citações para sossego de umas quantas almas. Mas há aspectos que, ainda agora, poderiam ser vistos e compreendidos mais ou menos por toda a gente e que são pelo menos tão importantes quanto a exaltação das façanhas guerreiras e dos aspectos heróicos da expansão.

Um desses aspectos prende-se com a crítica dos excessos, desvios, abusos, corrupções e desmandos da sociedade do seu tempo. Outro, respeita à introdução de uma noção de trocas comerciais no texto do poema, para a qual Magalhães Godinho de há muito chamou a atenção. Outro ainda, acentua a importância do Amor, quer como manifestação espiritual e emocional da vida humana, que pode condicionar não apenas o destino individual, mas também o próprio curso da História, quer enquanto dimensão metafísica que dá acesso ao conhecimento cósmico, como já em Dante acontecia.

Sendo um repositório de tipo enciclopédico em que se compendiam múltiplos conhecimentos da sua época (históricos, geográficos, antropológicos...), a obra de Camões, no plano da cultura literária, é uma verdadeira suma intertextual da presença dos grandes clássicos. Desde logo, são de registar a destreza, a densidade e a qualidade literária com que é acolhida e tratada, numa perspectiva renascentista, quando não maneirista, mas sempre vivida, essa herança da Antiguidade. Depois, porque tais elementos envolvem uma compreensão e uma encenação do mundo a partir dos ensinamentos, mitos e figuras assim recebidos, mas questionam radicalmente tal herança do mesmo passo que a reelaboram. Os Lusíadas são um momento crucial do próprio processo de interrogação da Europa sobre si mesma. E também por isso são um monumento incomparável da cultura europeia.

O poema camoniano configura uma elaborada epopeia do desvendamento do mundo e da aventura do conhecimento humano: ao contrapor à fábula e ao mito critérios novos de verdade e de experiência; ao contrapor os testemunhos vividos de fenómenos naturais e as referências a tecnologias inovadoras ao saber meramente livresco dos Antigos; ao manifestar a plena consciência de estarem a ser ultrapassados os "vedados términos" do mundo até então conhecido; finalmente ao propor uma visão, conquanto ainda geocêntrica, da estrutura e funcionamento do Cosmos.

Numa geometria cujo paralelismo só pode ser intencional, os cantos V e X de Os Lusíadas, a rematar, respectivamente, a primeira e a segunda metades do poema, articulam os dois tempos fundamentais desse conhecimento, o que vem do domínio da Natureza e das suas forças e o que desenha uma arquitectura do Universo cujo modelo em "trasunto reduzido" é apresentado no "globo transparente". Assim a História se fez conexa com a experiência humana e a aventura da viagem torna-se iniciática e abre para uma contemplação da transcendência.

Camões foi capaz de pegar nestas coisas e de as tornar elementos essenciais da magnificência do seu poema. Não perdemos nada em recordá-las de vez em quando. Porque não começar já hoje?

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A cidade e o nexo*

por Brassalano Graça, licenciado em Jornalismo

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