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ALBERTO GONÇALVES
dias contados

O meu caso com o caso Relvas (parte II)

por ALBERTO GONÇALVES  

A 2 de Junho de 2011, escrevi no DN: "É claro que o PSD, de facto a alternativa disponível, nos oferece abundantes motivos para lhe recusarmos o voto, ou no mínimo para o entregarmos a custo. Fernando Nobre. A dificuldade em assumir o vago, e necessário, liberalismo presente no próprio programa. Miguel Relvas."

A 19 de Junho de 2011, escrevi no DN: "E suspeito que a designação de um "orgânico" da estirpe de Miguel Relvas para liderar a reforma administrativa é indício de que não se pretende reformar administração nenhuma."

A 29 de Janeiro de 2012, escrevi no DN: "No passado dia 16, a RTP transmitiu o Prós e Contras directamente de Luanda. Não vi, mas deve ter sido bonito. Comentários avulsos confirmaram as minhas suspeitas: moderados pela lendária Fátima Campos Ferreira, uma comitiva liderada pelo ministro Relvas e composta pelos pechisbeques empresariais e "culturais" da praxe tagarelou amenamente com a nomenclatura do regime angolano."

A 19 de Fevereiro de 2012, escrevi no DN: "Para os que se queixam de uma classe política semiletrada, consola saber que um governante gastou uma pequena fortuna em livros. Infelizmente, o governante em causa é o ministro Miguel Relvas, a pequena fortuna é dos contribuintes e os livros são uma edição luxuosa do programa do Governo."

A 20 de Maio de 2012, escrevi no DN: "Como o 'eng.' Sócrates, é o 'dr.' Relvas que é suspeito de pressionar e ameaçar jornalistas, conforme a trapalhada com uma senhora do Público indicia."

A 27 de Maio de 2012, escrevi no DN: "(...) ao sr. Relvas, cuja relevância no actual Governo desde o início me pareceu uma afronta à credibilidade do mesmo."

Se não erro, isto foi tudo o que até hoje escrevi no DN acerca de Miguel Relvas. Em vão. Os acontecimentos recentes levaram diversas criaturas a aliviar-se via internet e correio electrónico de uma ou duas certezas: no mínimo, sou um entusiasta de Miguel Relvas; no máximo, sou pago por Miguel Relvas para glorificá-lo em público. Obviamente, é impossível tentar convencer essa gente do contrário. Mesmo que preenchesse esta página com uma efígie de Miguel Relvas em chamas e uma suástica por cima não faltaria quem descobrisse na mensagem um apoio explícito ao homem.

Quando não é fingida e motivada pela má-fé, a presunção acima fundamenta-se no axioma gonçalvista (escola Vasco) segundo o qual "quem não está com a revolução, está contra a revolução". Traduzindo, dado que nunca demonstrei vestígio de simpatia por José Sócrates (ou pelos partidos comunistas, acrescente-se), as tradições locais levam numerosos nativos a imaginar que dedico um fervor religioso aos sucessores e, em teoria, opositores de José Sócrates.

Não dedico, mas, visto que no fundo essa parece ser a questão em questão, concedo: é um nadinha excessivo comparar José Sócrates com Miguel Relvas. Além das alhadas e mentirinhas em que ambos são pródigos, o primeiro arruinou conscientemente o país, enquanto, até ver, o segundo limita-se a perturbar a recuperação do país e a arruinar o Governo a que inacreditavelmente continua a pertencer. E esta evidência, insisto sem esperança, não é um frete a Miguel Relvas, de cuja figura pública, não sei se já disse, não gosto nada. Da figura privada não faço ideia nem quero fazer, ainda que a muitos isso pareça inacreditável. Tanto, que não acreditam.

Segunda-feira, 28 de Maio: Solidariedade, modo de usar

Sou do tempo em que o Ocidente olhava os seus próprios percalços económicos como uma insignificância, se comparados com a pura miséria do Terceiro Mundo. Há vinte ou trinta anos, por maiores que fossem as crises do lado de cá do Equador, a fome em África comovia corações, gerava monumentais campanhas de apoio e, de brinde, alimentava carreiras na música pop. Hoje, ninguém quer saber do assunto. Pior, invocar hoje o assunto é motivo de impaciência e indignação, conforme o deslize de Christine Lagarde deixou perceber.

Num momento de sinceridade, a sra. Lagarde confessou preocupar-se mais com as crianças do Níger do que com os gregos que, cito, limitam-se a querer "escapar aos impostos." Embora ligeiramente demagoga, a afirmação é razoável. Infelizmente, a época não convida à razão e a fúria que caiu em cima da directora do FMI não se descreve: de Atenas a Lisboa, as boas consciências da praxe acusaram a senhora das piores vilezas. No que depender das boas consciências, as crianças do Níger que se lixem.

De facto, não é que os europeus estejam menos compassivos: sucede apenas que nunca tiveram compaixão nenhuma. África serviu de bandeira contestatária enquanto não ficou evidente, incluindo aos ceguinhos, que as desgraças locais se deviam muito menos à interferência do homem branco do que aos governos corruptos em vigor na região. A partir do instante em que o drama dos subsaarianos e subnutridos já não convertia ninguém à fé anticapitalista, os infelizes puderam morrer em sossego.

Agora agita-se a questão grega na medida em que esta permite, ainda que com grande liberdade poética, culpar a alta finança, os EUA e os inimigos do costume. No dia em que todos perceberem que o problema dos gregos são eles mesmos, o celebrado "berço da democracia" desaparecerá num ápice da retórica indignada em prol de outra "causa" qualquer. Na ideologia da solidariedade, é sempre o remetente que importa: o destinatário não passa de pretexto. Nem da cepa torta - o que, com amigos assim, é natural.

Sexta-feira, 1 de Junho: Cinzas

Interditar o fumo nos restaurantes (e aparentados) significa condenar de vez um sector que, só no primeiro trimestre do ano e sem a ajuda do Governo, despediu 15 900 funcionários e registou uma queda de 30% no negócio.

Por espantoso que pareça, se ainda nos espantarmos com alguma coisa, é isto o que um obscuro secretário de Estado da Saúde, um tal Leal da Costa, anunciou todo contentinho: até 2020, será proibido fumar em todos os "espaços públicos". Razoável? Com certeza, se os protótipos de governantes não considerassem públicos os espaços privados que o Estado assalta materialmente e, pelos vistos, agora orienta espiritualmente.

De resto, a restauração é apenas um exemplo dos alvos da "lei de restrição de não fumo" (é verdade, o sr. da Costa não subiu na carreira graças ao domínio da língua). Outro exemplo são os carros particulares, perdão, os carros públicos que os cidadãos compraram com o seu dinheiro e pelos quais pagam abusivas fortunas ao fisco no momento da compra e em incontáveis momentos posteriores.

Pois bem: se os carros transportarem crianças, não haverá cigarro para ninguém. O sr. da Costa explica: "Está demonstrado que a concentração de fumo na parte de trás do veículo é muito grande, além de que os plásticos ficam embebidos por material carcinogénico que vai sendo lentamente libertado" (o homem não aprendeu português, mas é versado em análises minuciosas a habitáculos).

Por acaso, também está demonstrado que a concentração de poder nas mãos de nulidades estimula a arrogância e é prejudicial ao sossego alheio. Por mim, frequento poucos restaurantes, raramente vou a cafés, não fumo no carro e nunca, nem sob ameaça de arma, conduziria na companhia de uma criança. Mas mesmo quando a opressão não nos atinge, a opressão incomoda. Mais do que o tabaco, o qual, aliás, possui a virtude de abreviar a partilha de um mundo absurdo com incontáveis srs. da Costa. Um já sobra. Ou sobramos nós.

Sábado, 2 de Junho: A praça e o comércio

Há um mês, António Costa afirmou que o sucesso dos descontos no Pingo Doce provou que os portugueses têm medo. Eis uma boa altura para medir o nível de pavor dos lisboetas em particular, agora que um outro supermercado realizará promoções em pleno Terreiro do Paço. No próximo dia 16, o Continente despejará gado, chouriços, leguminosas e "Tony" Carreira na Praça do Comércio, a pretexto de um piquenique e em colaboração com a autarquia a que António Costa preside. O vereador Sá Fernandes, especialista na consignação de espaços públicos para patuscadas, explica que o evento dará a conhecer "animais que muitas pessoas não conhecem". O gnu? O ornitorrinco? Decerto não será o urso, a figura dos que acreditaram que o "Zé" fazia falta à capital e acreditam que o António, putativo candidato a Belém, faz falta ao país.

A redistribuição da pobreza

Em média, o dinheiro que os portugueses ganharam desde o início do ano até hoje, domingo, servirá apenas para pagar os impostos de 2012. Em simultâneo, almas sensíveis temem o avanço do "liberalismo" e o fim do Estado "social", ameaças só dissipadas quando trabalharmos de borla até Novembro. Ou Outubro, vá lá.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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por João Nobre, joaonobre_1988@hotmail.com

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