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FERREIRA FERNANDES
um ponto é tudo

Escolher entre a cólera e a peste

por FERREIRA FERNANDES  

A mais poderosa das Primaveras Árabes, a do Egito, acaba de tomar conhecimento de que os tempos não estão para meias estações. A segunda volta das eleições presidenciais egípcias, a 16 e 17 de junho, não propõe um dilema mas um pesadelo: os candidatos são Mohammed Morsi e Ahmed Chafik, o homem da Irmandade Muçulmana e o homem do Exército. Quem queria uma sociedade civil vai ter de escolher entre duas fardas, a da guerra santa ou a do poder militar. Os outros nove candidatos, todos eles, ou não pertenciam às duas forças que dominam o Egito há meio século (as Forças Armadas e a Irmandade Muçulmana) ou eram adeptos de versões moderadas desses pilares. Pois o povo não esteve para meias-tintas, escolheu os puros e duros - o desejo de ordem impôs-se ao de liberdade. O Egito ou vai retomar o regime militar, se vencer Ahmed Chafik (que fora o último primeiro-ministro nomeado antes de Moubarak deixar o poder), ou vai, com Mohammed Morsi (homem de mão de Khaïrat Al-Shater, que não pôde candidatar-se e é o líder dos islâmicos radicais), para um regime religioso. Há ano e meio, na Praça Tahrir, as caras descobertas das mulheres e a liberdade de palavra não queriam desembocar nisto, mas aqui se chegou. E quem quer que seja o presidente eleito em junho, islâmico ou militar, não augurando nada de bom, sairá legitimado pelas urnas. Abrir as portas ao inimigo é um dos paradoxos da democracia.


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