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BERNARDO PIRES DE LIMA
análise

Timor, apesar de tudo

por BERNARDO PIRES DE LIMA  

As mudanças na Indonésia, a capacidade diplomática portuguesa e a mediação das Nações Unidas ajudaram a enquadrar a independência de Timor-Leste. Uma década depois, a Indonésia está no G20, a diplomacia portuguesa adapta-se ao ocaso europeu, as Nações Unidas resistem à mudança e Timor-Leste entra numa era decisiva da sua curta vivência democrática: a preparação da transição das lideranças políticas com uma legitimidade revolucionária (Xanana, Ruak, entre outros) para uma nova geração política que cresceu na independência. Para que esta segunda década seja como todos desejam, é preciso uma governação estável, uma reforma prudente do sector da segurança, a redução maciça da pobreza, coesão social e o incremento da iniciativa privada capaz de criar um ambiente empresarial com condições de estruturar uma classe média timorense. Podemos dizer que Timor-Leste é um caso de sucesso no histórico de falhanços das missões da ONU. Apesar dos momentos de violência, uma Constituição foi aprovada, conduziram-se eleições representativas, há investimento estrangeiro, regime fiscal atrativo e um potencial turístico enorme. Tem riqueza energética, está geograficamente bem colocado, tem uma ponte com a lusofonia e a Europa e está a caminho de entrar na ASEAN. Falta o resto. E o resto é controlar a inflação, os níveis de pobreza e mortalidade infantil, trabalhar infraestruturas (para onde vai metade do orçamento deste ano) e acautelar o impacto da alta natalidade na economia e educação. Um ponto importante passa por desenhar o papel futuro da ONU. É um caso em negociação, mas a pressa na retirada não deve ser um dogma. Se há coisa que a ONU precisa é de casos positivos nas suas missões. E, mais uma vez, Portugal deve contribuir para uma boa solução, que não inverta o alcançado ou prejudique a relação com Díli. Se queremos pontes com a Ásia, esta é uma das mais importantes.


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