por EURICO, DE BARROS
Quando era bebé, Kevin não parava de chorar sempre que estava com a mãe. Quando já era mais crescido, Kevin era totalmente do contra com a mãe. Aos 8 anos, Kevin ainda usava fraldas só para atormentar a mãe e sabia exatamente o que fazer para a levar ao desespero. Adolescente, Kevin é sinistro, inteligente e cínico, e de uma crueldade tão calculista como sádica para com a mãe. Se Temos que Falar Sobre Kevin, da britânica Lynne Ramsay (Ratcatcher, A Viagem de Morvern Callar) fosse um filme de terror sobrenatural, Kevin seria um jovem possuído pelo demónio. Mas como o filme não anda por paragens fantásticas, Kevin é um psicopata que acaba por protagonizar uma dupla tragédia. Alguma vez pensaram o que terá sucedido aos pais dos dois adolescentes que fizeram o massacre no Liceu de Columbine? Será que foram perseguidos e ameaçados na comunidade onde viviam? Será que tiveram de mudar de casa, de Estado, de vida? Lynne Ramsey rodou, em parte, um filme sobre uma mãe (Tilda Swinton, mais assombrada que nunca) que tem que arcar com as consequências da barbaridade cometida pelo filho. Mas Temos de Falar Sobre Kevin é também sobre algo mais terrível e incómodo, emocional e biologicamente contranatura: a total, arrepiante, aberrante incompatibilidade entre uma mãe e um filho. Kevin é como que o castigo infernal que a natureza inflige à mãe , por esta não ter predisposição para a maternidade e nunca ter tido muita paciência para o filho (o filme sugere que a personagem da mãe, uma autora de livros de viagem de sucesso, era mais feliz solteira, que não faz muito bem ideia porque se casou e não queria ter filhos). Afinal, Temos de Falar sobre Kevin é mesmo um filme de terror. O terror gerado pelo desamor de mãe e pelo ódio filial.
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