por EURICO DE BARROS
Leitor de muitos anos do The Sunday Times, já estava habituado à fotografia daquela jornalista loura que desde 2001 aparecia com uma pala de pirata no olho esquerdo, perdido para um estilhaço no Sri Lanka, e que apesar de especializada em Médio Oriente fazia a cobertura de conflitos por todo o mundo, da Chechénia ao Kosovo, passando pela Serra Leoa. As reportagens de guerra da norte-americana Marie Colvin, morta ontem quando seguia os combates entre rebeldes e forças do Governo em Homs, na Síria, eram modelos de jornalismo corajoso e rigoroso, que nunca abdicava de ser emocionado. Colvin informava "com precisão e sem preconceitos", como frisava, sem esquecer as devastações causadas pelos conflitos. Chegava-se o mais próximo possível do coração dos acontecimentos, pondo-se cronicamente em risco de vida, e costumava até brincar com esse tu cá, tu lá com o perigo. Um dos seus últimos comentários no Facebook, na noite antes de morrer, foi que as notícias da sua sobrevivência poderiam "ser exageradas". Multipremiada, era uma das últimas grandes correspondentes de guerra na grande tradição do jornalismo, e do jornalismo anglo-saxónico em particular. Gostava de estar no olho do furacão dos combates, ao lado dos seus atores e testemunhando os seus horrores e o sofrimento das vítimas, convicta de que o que fazia tinha importância e podia fazer a diferença, em termos jornalísticos e humanos. Vivia nos antípodas dos correspondentes de guerra de hotel que ficam nos seus quartos com ar condicionado e minibar, a descrever o que veem na televisão. Em 1999, foi a última jornalista a sair de Timor-Leste após o referendo. Os jornalistas só devem ser notícia quando morrem ou quando ganham prémios. Marie Colvin é hoje notícia pela pior destas duas razões.
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