por BERNARDO PIRES DE LIMA
Pela segunda vez num ano, dois navios de guerra iranianos atravessaram o Suez rumo à Síria, atracando na base russa de Tartus. A tentativa de isolar o Irão tem obrigado o regime a projetar poder na região (Bahrain, Síria, Líbano, Gaza, Iraque e Afeganistão), a endurecer a narrativa (Ormuz, nuclear) e a publicitar manobras militares (navegação no Mediterrâneo, reforço da defesa antiaérea). Esta sensação de cerco leva Teerão, por sua vez, a cercar a região. A primeira coisa que é preciso dizer é que um Irão nuclear ou apenas em vias de se tornar militarmente nuclearizado é uma ameaça existencial, não para Israel ou EUA (que têm capacidade de resposta superior) mas para os países do Golfo (que não têm competências autónomas). As monarquias sunitas, a começar pela Arábia Saudita, sentem verdadeiramente o cerco xiita imposto pelo Irão. Consideram mesmo que há uma vontade hegemónica persa em curso, imparável depois de garantida capacidade nuclear - Ray Takeyh (Hidden Iran) e Robert Baer (The devil we Know) trabalham bem estas perceções. Seria um caminho sem retorno e uma corrida regional à nuclearização. Até lá, podemos aceitar que o isolamento de Teerão serve para obrigar o regime a regressar às negociações, enquanto a sua economia definha. Pode ser que resulte. Mas a médio-longo prazo, sem negociação direta e séria dos dois lados e com uma possível mudança de regime na Síria, o Irão será levado a reforçar os seus laços na região e sobretudo a impor-se definitivamente no Iraque. É aqui que novamente os nossos olhares vão concentrar-se. Porque Bagdad tem uma projeção de exploração de petróleo a dez anos com vista a igualar a Arábia Saudita, ainda por cima livre de quotas da OPEP; e porque representaria na perfeição um ciclo de declínio americano seguido da ascensão iraniana. Acreditem que nada daria mais gozo aos aiatolas.
Inês Quintela
mais uma óptima análise.
há 456 dias, 22 horas e 1 minuto
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