Publicidade
Diário de Notícias Diário de Notícias


FERNANDA CÂNCIO

Nesta luta (a)final

por FERNANDA CÂNCIO  

O casamento entre o capitalismo e a democracia acabou." A frase, do filósofo esloveno Slavoj Zizek durante uma entrevista à Al Jazeera, surgiu dois dias antes do anúncio-choque do PM grego sobre a intenção de convocar um referendo sobre as medidas de austeridade. A reacção às palavras de Papandreou dos chamados "mercados", assim como dos governos "dominantes" da Europa - e até de muitos jornalistas -, gritaria de irresponsabilidade e loucura embrulhada num minicrash das bolsas (com os bancos a mergulhar devido à sua exposição à dívida grega e à hipótese de o país decidir não pagar), pareceu encomendada para ilustrar as de Zizek. E houve mesmo quem, como o colunista polaco Waldemar Kompala, do jornal Rzeczpospolita, não se coibisse de lhe dar razão com todas as letras: "Enquanto a crise durar, a UE deve ser gerida com eficácia, mesmo não democraticamente." (via The Guardian).

Ora sucede que, como toda a gente já reparou, há muito que a Europa está a ser gerida, ou coisa que o valha, não democraticamente, e não é por causa disso que a coisa se tem revelado eficaz - a não ser que a eficácia se deva medir, precisamente, na destruição do ideal democrático. É que se é por aí, está a correr lindamente. Quando se reage com fúria e incredulidade à possibilidade de um Estado perguntar à população, submetida a brutal austeridade, qual o caminho que escolhe, isso só pode querer dizer que ou se considera que aquele povo em particular não pode ser dono de si ou se está a negar a ideia de democracia tout court.

Sobre a existência de um racismo em relação aos povos do Sul não restam dúvidas; afinal, já fomos acusados por Merkel de trabalhar menos horas, de termos mais férias e de nos reformarmos mais cedo. E se se trata de uma falsidade, como a própria imprensa alemã demonstrou, não é menos óbvio que essa ideia de que cá por baixo temos mais direitos do que os que merecemos tem feito o seu caminho, mesmo nas nossas cabeças. Até chegarmos a isto, ao momento em que vemos dito e escrito e repetido como óbvio esta coisa obscena: que há povos aos quais não se pode permitir decidir para que lado querem ir, porque outros - melhores, mais responsáveis, mais "trabalhadores", mais ricos - decidem por eles.

Quem paga manda, disse Ferreira Leite num célebre momento parlamentar. A crer nisso, a defender isso, os alemães e os franceses talvez devessem perguntar-se quem afinal está no lugar de quem paga e portanto de quem manda. Falo dos trabalhadores alemães e dos trabalhadores franceses, aqueles para quem ainda há férias pagas e horários de trabalho de oito horas e a quem ainda se pergunta o que acham. É que, como as crises financeiras, as de regime costumam ser sistémicas. E tendo Zizek razão, é só uma questão de tempo até que o processo de chinezação em curso chegue lá acima. Ou, visto de outra forma - e alguma esperança - até que se ressuscite a Internacional.


Patrocínio
 
5612Visualizações
55Impressões
0Comentários
14Envios
Ferramentas

Enviar por EmailEnviar por EmailPartilharPartilhar
ImprimirImprimir
Aumentar TextoAumentar TextoDiminuir TextoDiminuir Texto

FERRAMENTAS
 
  • Enviar por EmailEnviar
  • PartilharPartilhar
  • ImprimirImprimir
  • Comentar este ArtigoComentar este Artigo
  • Aumentar TextoAumentar Texto
  • Diminuir TextoDiminuir Texto
 
PARTILHAR NOTíCIA
 
FERNANDA CÂNCIO

Na segunda-feira à noite, o humorista Jon Stewart fez um sketch sobre o conflito israelo-palestiniano: começava a falar e mal dizia a palavra "Israel" aparecia uma série de pessoas aos gritos a invetivá-lo...

NUNO AZINHEIRA

Os nomes que já se conhecem para o Conselho Geral Independente da RTP, Simonetta Luz Afonso, João Lopes, Manuel Pinto e Ana Lourenço, são de qualidade acima de qualquer suspeita. Homens e mulheres que...

JOSÉ MANUEL PUREZA

A LP da CP já era. Não, esta crónica não é sobre discos de vinil nem sobre comboios. É sobre uma organização internacional e sobre o sentido da sua existência.

PAULO PEREIRA DE ALMEIDA

Numa recente entrevista a um canal de televisão de informação, um dos principais humoristas portugueses - Herman José - criticava de forma velada a governação do Partido Social Democrata (PSD), concretamente...

FERREIRA FERNANDES

Há coisas que custam a engolir mas, pronto, tenho de aceitar. Eu já não tinha gostado da PJ a vasculhar os papéis nas minhas duas salas no Hotel Palácio, mas lá aceitei. Depois, quando o juiz me avisou...


A cidade e o nexo*

por Brassalano Graça, licenciado em Jornalismo

O DN está aberto à participação dos leitores. Use o email jornalismodecidadao@dn.pt para publicar online os seus artigos, fotos ou videos. Publique os seus SMS usando o número 96 100 200

Ver mais

FERNANDA CÂNCIO

A guerra dos 100 anos

por FERNANDA CÂNCIO

 

Na segunda-feira à noite, o humorista Jon Stewart fez um sketch sobre o conflito israelo-palestiniano: começava a falar e mal dizia a palavra "Israel" aparecia uma série de pessoas aos gritos a invetivá-lo...


Ver Mais




PUB

Especiais

Recuar
Avançar
Continente UVA D'OURO 2014 DN 300x100
Epaper



PUBLICIDADE

sondagem

Inquérito DN

Acredita que Ricardo Salgado vai ter um julgamento justo?

Sim
Não
Votar  Ver Resultados



DN

Epaper

Epaper