Publicidade
Diário de Notícias Diário de Notícias


A convidada

O Iémen e os direitos das mulheres

por MARIA JOÃO TOMÁS  

Os milhões de dólares que o Presidente Ali Abdul- lah Saleh recebeu durante décadas para ajudar o desenvolvimento do Iémen não impediram que este país continuasse a ser um dos mais pobres do mundo, com uma taxa de desemprego a rondar os 35%. A escolha da iemenita Tawakel Karman para o Prémio Nobel da Paz reflecte os esforços feitos por esta mulher para combater a corrupção de um dos regimes ditatoriais mais severos do Médio Oriente. Símbolo da luta pela liberdade de expressão, e pela democracia, é também um dos ícones das revoluções da Primavera Árabe. Mas é noutra luta, bem mais difícil, que a sua acção tem sido decisiva: a marginalização e a falta de direitos das mulheres no Iémen.

Consideradas como sendo posse e objecto do marido, as iemenitas são muitas vezes vendidas pelos seus pais antes dos quinze anos para casarem com homens muito mais velhos e começarem a ter filhos. Privadas de qualquer apoio hospitalar, porque só podem ser vistas por mulheres médicas, o que com a taxa de iliteracia feminina a ultrapassar os 70% é difícil de conseguir, morrem com problemas decorrentes da gravidez ou do parto. Muitas nem acesso têm a parteiras, e uma simples ida a um hospital pode ser-lhes proibida pelo marido. A contracepção não existe, numa sociedade em que o número de filhos representa uma segurança financeira para o futuro. Encaradas como um encargo familiar, as meninas têm pior alimentação que os irmãos e dificilmente frequentarão escolas e universidades. Desde o início da puberdade que o seu corpo tem de andar sempre coberto, e para além de andarem sempre de nicabe com apenas uma faixa a descoberto para os olhos, muitas ainda usam luvas e sapatos fechados, mesmo com os mais de 45 º graus que se fazem sentir durante o Verão. Não podem fazer nada sem pedir autorização ao marido, pai ou qualquer outro familiar masculino que esteja por perto, como por exemplo tirar uma fotografia ou sair à rua. São segregadas nos lugares públicos, como nos restaurantes, porque não devem estar ao pé de homens. E se por algum acaso tiverem de comer fora de casa, deverão escolher uma mesa virada contra uma parede, ou sentar-se na parte do restaurante indicada para as mulheres. O problema, além do convívio masculino, é terem de levantar o véu para comer e alguém poder ver-lhes a cara.

Outra das prioridades da Prémio Nobel da Paz é a detenção arbitrária a que as mulheres iemenitas estão sujeitas. As prisões femininas estão cheias de jovens que foram presas com acusações que vão desde fumar, comer em público sem a presença do marido, ou adultério por simplesmente olharem um homem de frente. Quase qualquer pessoa do sexo masculino pode mandar prender uma mulher, e por isso muitas iemenitas não sabem por que razão estão na cadeia, nem a acusação de que são alvo.

Raramente têm direito a um julgamento, e uma das poucas soluções que têm é conseguir que alguém lhes pague uma fiança, o que num país tão pobre como o Iémen dificilmente se consegue.

Enfrentando inúmeros obstáculos, e sob "as condições mais difíceis", tal como referiu o Comité Nobel quando anunciou o seu nome, Tawakel Karman chamou a atenção para a condição feminina no seu país. Apesar das restrições vigentes e tendo sido presa pelo menos duas vezes, conseguiu algumas, grandes, mudanças numa sociedade em que as inovações não são bem-vistas. Uma das suas primeiras iniciativas foi deixar de usar o nicabe e as luvas para andar de cara destapada, cobrindo a cabeça apenas com um lenço colorido, numa atitude que pretende mostrar que "é possível alterar costumes antigos", tal como ela declarou ao Yemen Times no início deste ano.


Ler Artigo Completo(Pág.1/2) Página seguinte
Patrocínio
 
3694Visualizações
7Impressões
2Comentários
4Envios
Ferramentas

Enviar por EmailEnviar por EmailPartilharPartilhar
ImprimirImprimir
Aumentar TextoAumentar TextoDiminuir TextoDiminuir Texto

FERRAMENTAS
 
  • Enviar por EmailEnviar
  • PartilharPartilhar
  • ImprimirImprimir
  • Comentar este ArtigoComentar este Artigo
  • Aumentar TextoAumentar Texto
  • Diminuir TextoDiminuir Texto
 
PARTILHAR NOTíCIA
 
LEONÍDIO PAULO FERREIRA

Reagan, que fez 70 anos três semanas após tomar posse, costumava brincar com a idade dos interlocutores soviéticos. Dizia que não se aguentavam no cargo. Mas Brejnev morreu com 75 anos, Andropov com 69...

Joel Neto

Em Dezembro andamos ao Menino-Mija. Menos angustiada com as matérias da estética, a província guarda destas rudezas antigas, até que elas se tornam jocosas, depois apenas tristonhas e finalmente encantadoras...

FERREIRA FERNANDES

Em 2005, no Estádio Heysel, inaugurou-se um monumento simples, 39 lâmpadas e um poema escrito no mármore. Lembrava-se uma tragédia de vinte anos. O poema é célebre, "Funeral Blues", do inglês W. H. Auden.


A tortura

por Tiago Aboim, tiago.aboim.js@gmail.com

O DN está aberto à participação dos leitores. Use o email jornalismodecidadao@dn.pt para publicar online os seus artigos, fotos ou videos. Publique os seus SMS usando o número 96 100 200

Ver mais
Comentar

Se tem conta, faça Login

Email

Password







PUB
PEPE Jornadas Empreendedorismo Turismo - DN Destaque

Especiais

Recuar
Avançar
TSF Superbrand - DN destaque
BT Edições Multimédia
Epaper



PUBLICIDADE

sondagem

Inquérito DN

Tensão do Ocidente com a Rússia pode favorecer a Base das Lajes?

Sim
Não
Votar  Ver Resultados



DN

Epaper

Epaper