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MÁRIO SOARES
o tempo e a memória

As causas da crise

por MÁRIO SOARES  

1. Volto a escrever sobre a crise (financeira, económica e política) com que a União Europeia se defronta, sem ser capaz de encontrar um rumo concertado para a ultrapassar, ao menos, entre os dezasseis Estados da Zona Euro. Crise, que não resulta só do ataque dos mercados ao euro, visando, por enquanto, os Estados com maiores debilidades. Na realidade, a crise afecta o euro, ou seja: todos os Estados da União e não só os da Zona Euro - o Reino Unido é uma prova disso -, visto que põe em risco o próprio projecto europeu no seu conjunto. O que seria gravíssimo, não só para a Europa mas também para todo o Ocidente, que entraria em decadência (Estados Unidos, Canadá, Austrália e Ibero-América), com efeitos extremamente negativos em todo o resto do Mundo. Porque significaria um recuo civilizacional tremendo.

Note-se que a crise complexa e multifacetada que vivemos tem causas não só financeiras, que vêm de longe, e, no que toca especialmente à Europa, resulta também da incapacidade manifestada por alguns dos seus principais dirigentes de se recusarem a ver a realidade.

Ora, o mundo está, e continua, em rapidíssima mudança - tornou-se multilateral e multicultural (fenómeno que a chanceler Merkel, com incompreensível falta de visão - imagine-se! - afirmou estar ultrapassado!) - e a globalização, desregulada, fruto das novas tecnologias de comunicação, que gerou um capitalismo financeiro--especulativo, dito de casino, sem princípios éticos, em que o dinheiro constitui o supremo valor. Resultado: os "paraísos fiscais" e os chamados negócios virtuais, desarticulando o sistema financeiro-económico existente, provocando falências em bancos e em outras importantes empresas privadas, causaram as maiores dificuldades a alguns Estados mais fracos, mas também em outros que se julgavam fortes.

É preciso, e urgente, portanto, criar um novo paradigma, como disse Barack Obama, no discurso do dia da sua posse. Sem ter sido capaz de ir muito longe, até agora, nesse difícil caminho... Atacar as causas para depois chegar às consequências. Ou seja: avançar no sentido de um novo modelo de desenvolvimento, orientado por princípios éticos estritos e baseado na concertação social e em regras ambientais respeitadoras dos equilíbrios ecológicos.

É tudo isso que a maioria dos dirigentes europeus - e a burocracia que os rodeia - não querem compreender nem julgar e combater. Para tanto, seria necessário rupturas e autocríticas várias, que não têm coragem de assumir.


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