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Vasco Graça Moura

Arte africana e arte europeia

por Vasco Graça Moura  

N os séculos XV e XVI, os mercadores portugueses encomendavam aos nativos entalhadores, na zona da Serra Leoa, a feitura de peças em marfim com a reprodução de cenas de xilogravuras produzidas na Europa. A chamada arte sapi, de que ainda conhecemos bastantes peças avidamente coleccionadas, produziu píxides, saleiros (Albrecht Dürer teria adquirido dois, que diz serem "de Calecute"), os famosos olifantes, vários tipos de talheres… Segundo o catálogo Africa and the Renaissance (Nova Iorque e Houston, 1988), já Duarte Pacheco Pereira, que foi governador de São Jorge da Mina, falava, no Esmeraldo, da beleza das colheres de marfim da zona, embora eu creia tratar-se de uma confusão tradutória manifesta, porque o navegador fala em colares e não em colheres: "nesta terra se fazem os mais sutis colares de marfim e milhor lavrados que em nenhuma parte" (Esmeraldo de situ orbis, I, 33).

A primeira influência europeia na arte da África subsariana terá sido essa, amplamente documentada naquele catálogo, e teve lugar por intermédio dos portugueses, uns bons quatrocentos anos antes de a arte africana ter, por sua vez, influenciado as Demoiselles d'Avignon de Picasso e o mais que se seguiu…

Se cotejarmos as xilogravuras utilizadas e os baixos-relevos produzidos em marfim a partir delas, é interessante notar a preocupação de "fidelidade literal" ao programa fornecido, e também a enorme diferença que vai da representação plástica praticada por europeus à capacidade de seguir os paradigmas correspondentes por parte dos artistas nativos. De um modo geral, a figuração africana, imemorial ou recente, mesmo aquela em que é patente a preocupação de uma correspondência estreita com o real, fica muito distante dos cânones europeus dos últimos 2500 anos, como fica também distante dos perfis bidimensionais da arte mesopotâmica e da arte egípcia em que há um tipo de cânone com que ainda nos identificamos.

Vem isto a propósito de uma exposição magnífica, intitulada África/Diálogo Mestiço, em que, na Galeria da Galé (Terreiro do Paço, antiga garagem de camiões dos CTT), José de Guimarães apresenta as peças principais, e são umas 400, da sua colecção de arte tribal, mostrando também, a partir de alguns quadros, o diálogo fecundo da sua pintura com a arte africana. Não valerá a pena percorrermos aqui as variadíssimas formas de expressão apresentadas, nem os inúmeros materiais utilizados, nem as questões de escala das obras, desde o muito pequeno ao gigantesco, nem os tipos, categorias e procedências por que se arrumam as peças apresentadas. E também não me interessa enveredar pela exploração das questões clássicas na matéria: arte tribal? arte primitiva? formas do simbólico? função ritual das peças? sua utilização pelo poder? sua "redução" esquemática? seu papel na vida quotidiana? fetichismo? magia? realismo? expressão de forças e energias animistas? Vários especialistas, como Rui Pereira, Raquel Henriques da Silva, Kosme de Barañano e o próprio José de Guimarães, elaboram sínteses muito úteis sobre estes e outros aspectos.

A mim, europeu agredido pelas idiotias multiculturalistas da UNESCO e quejandas instâncias, sob a égide do politicamente correcto, e seguidas por muitos ingénuos por esse mundo fora, a mim, com todo o respeito e interesse por formas de expressão artística não europeias, o que me interessa salientar é que não se pode nivelar tudo em nome do dito multiculturalismo. Esse é um expediente na linha dos esquerdismos históricos da UNESCO desde o famigerado Sr. M'Bow, para desvalorizar tudo o que de grande a Europa e a civilização ocidental vieram fazendo ao longo de milénios.


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