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Alberto Gonçalves
Dias contados

Qimonda - a sequela

por Alberto Gonçalves  

A Qimonda não aterrou: espatifou-se no ar, em Vila do Conde ou na Alemanha, não importa. Mas ainda há quem peça a intervenção do piloto e reclame a salvação dos destroços.

Domingo, 29 de Março

Francisco Louçã critica a actuação de Manuel Pinho na novela da Qimonda e, à primeira vista, a atitude não é descabida. Qualquer criatura sensata achará lamentável que o ministro da Economia passe meses a garantir às terças e quintas que a Qimonda tem futuro, às segundas e sextas que a Qimonda não vai longe e às quartas e sábados que a Qimonda está assim-assim. Aos domingos, o dr. Pinho reflecte.

A questão é que a crítica do dr. Louçã é justamente a oposta: ele acusa o dr. Pinho de "atirar a toalha ao chão", ou seja, de não fazer o suficiente para salvar a Qimonda. Se transferirmos a metáfora desportiva do boxe para o consensual futebol, é o equivalente a acusar a selecção do famoso professor Queirós de marcar golos em excesso.

Desde logo, convinha que o dr. Louçã, economista de renome, notasse uma evidência: enquanto produtora de semicondutores, a Qimonda faliu. Mesmo a custo, até o dr. Pinho já percebeu esse pormenor e, talvez com demasiado optimismo, decidiu pedir à sede alemã a devolução de um pedacinho dos milhões que o Estado torrou numa fábrica inviável há muito. Antes tarde do que nunca. Em matéria de lucidez, o dr. Louçã, economista peculiar, prefere nunca e defende, embora com subtileza, que o Estado continue a torrar milhões. O argumento é o de que o Governo não pode aceitar a "lógica do lucro fácil". Na perspectiva do dr. Louçã, deve-se portanto adoptar a lógica do lucro difícil, para não dizer impossível, conquista que aliás costuma reflectir os investimentos numa empresa insolvente.

No filme "Aeroplano", há um passageiro demente que, durante a atribulada viagem, visita regularmente o "cockpit" a fim de dar confiança ao improvisado comandante. Horas depois de o avião ter aterrado em segurança e de toda a gente ter ido para casa, o passageiro insiste em visitar o "cockpit" e falar para o vazio: "Saiba que contamos consigo". A Qimonda não aterrou: espatifou-se no ar, em Vila do Conde ou na Alemanha, não importa. Mas ainda há quem peça a intervenção do piloto e reclame a salvação dos destroços. "Aeroplano" é uma comédia. O uso dos dinheiros públicos deveria ser outra coisa. E as cátedras em economia também.


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