Ohomem é ele próprio e a sua circunstância. As explicações chocadas de Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, ao sentir-se mal interpretado no que pretendeu dizer, têm todo o ar de ser sinceras, mas passam ao lado das questões que levantaram. Afirma o político germânico, alto quadro do SPD, que dera o exemplo da recente ida de Passos Coelho a Angola e do seu apelo ao investimento angolano em Portugal, não para apontar a dedo um caminho de declínio político e económico do nosso país, mas sim o da decadência da Europa, no seu conjunto, que nada tem a oferecer a Portugal e o obriga a virar-se para o fortalecimento económico e financeiro com terceiros.
É sabido que os socialistas europeus são particularmente críticos face à condução dos assuntos europeus pela dupla Merkel-Sarkozy. Mas a adversativa de Schulz nunca fez, nem faz, sentido: desde sempre, Portugal soube--se mais forte quando reforçava, simultaneamente, os seus laços europeus e os históricos, nomeadamente com os países lusófonos e com os EUA.
Acresce o facto de se multiplicarem as afirmações, sugestões e críticas de personalidades políticas alemãs contra os países em crise de dívida excessiva, que fizeram aumentar de forma inusitada a desconfiança de vários parceiros na UE acerca das tentações hegemonistas alemãs: os países do sul são repetidamente referidos em termos depreciativos; a eventual saída do euro por parte da Grécia surge como coisa pouca; o comissário europeu para a Energia, Günther Oettinger, propunha, em novembro passado, que os países incumpridores dos bons preceitos orçamentais vissem as suas bandeiras nacionais hasteadas numa humilhante meia--haste à porta do Parlamento Europeu; Portugal, de país exemplar no uso dos fundos estruturais europeus, desde os anos 80 (como vêm apontando os relatórios relevantes), surge agora, na boca da chanceler alemã, no pelourinho do despesismo sem nexo a propósito da Madeira.
Por este caminho, a Alemanha começa a criar demasiados anticorpos à sua volta, o que anuncia um desastre para o projeto europeu. O que falta é mais solidariedade e coesão entre os 27, para que os que mais podem continuem a ajudar numa construção, que só faz sentido à escala europeia. Como sempre aconteceu, com a Alemanha à cabeça, ao longo dos anos 60, 70 e 80 do século passado.
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