por
Leonídio Paulo Ferreira
jornalista
leonidio.ferreira@dn.pt
Safo já morreu há mais de dois mil anos, mas a culpa é toda dela. Se esta poetisa grega não tivesse fama de se apaixonar por outras mulheres, nunca Lesbos teria ganho destaque entre as mais de mil ilhas do Egeu. E lésbica não se teria tornado a palavra que a maioria das línguas europeias utiliza para designar as mulheres que se sentem atraídas pelo mesmo sexo. Para quem tem alguma noção de genealogia, não será de todo impossível imaginar que Dimitris Lambrou, um lésbico que iniciou agora uma cruzada contra o uso abusivo do gentílico da sua ilha, até descenda de Safo (a poetisa parece que chegou a casar-se e a ter uma filha). Mas dificilmente a antepassada remota aprovaria a sua luta: exigir que as associações de homossexuais deixem de usar a palavra lésbica é tão absurdo como inalcançável. Não se trata da apropriação de um termo por uma minoria, mas sim de uma palavra reconhecida em qualquer dicionário. Por exemplo, o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa não hesita em avançar com as duas acepções de lésbica: habitante da ilha de Lesbos; mulher que sente atracção por pessoa do mesmo sexo. É duvidoso que Lambrou imponha uma edição revista da obra do linguista brasileiro.
Com os seus cem mil habitantes e um tamanho semelhante ao de duas ilhas da Madeira somadas, Lesbos é um daqueles postais de férias, com o azul do mar a contrastar com o branco das casas gregas. E muitos turistas seduzidos pela beleza do Egeu escolhem-na exactamente pela graça do nome e pela fama de Safo. Por isso, Lambrou e todos aqueles que o apoiam, invocando estarem fartos de serem gozados quando assumem a sua origem, estão a atentar contra um dos trunfos turísticos da sua terra.
Mesmo que se sinta alguma compreensão pelo tal sofrimento dos lésbicos e lésbicas (ilhéus) e se evite a interpretação homofóbica da sua reivindicação, a sombra do linguisticamente correcto basta para repudiar a sua luta. Afinal, qualquer idioma está cheia de palavras que podem, em extremo, ser incómodas para alguém: em português, e do mesmo género, basta pensar em alarve, que não é mais que uma corruptela de árabe, e malta, cuja origem são os grupos de trabalhadores da ilha mediterrânica com esse nome que emigravam para trabalhar nos campos da Europa.
Herdeiros de uma brilhante civilização que nos deu, entre outras coisas, muitas palavras (desde cosmos a átomo), os modernos gregos, de Lesbos e não só, têm-se envolvido em recentes batalhas por causa delas. Uma insegurança como nação que não se justifica. Se dependesse deles, a Macedónia seria para sempre FYROM, as iniciais em inglês de Antiga República Jugoslava da Macedónia. Percebe-se as preocupações políticas por trás dessa obsessão, bem mais até que a actual luta de Lambrou, o lésbico, mas convém que não exagerem. Afinal, o autor desta crónica chama-se Leonídio e basta teclar a palavra no Google para surgirem centenas de páginas sobre uma cidade do litoral grego com o mesmo nome. Que nenhum habitante de Leonídio ache abusivo que um português se chame assim.|
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